(gerada por IA) Vivemos de ilusões, quase sempre para nos afastar da grande ameaça que sentimos pela finitude. Buscamos o poder, o aparentar ser, a fim de nos constituir, onde o ter tenta substituir o ser. E conseguimos? Já Platão, no seu livro A República, nos falava que no nosso cotidiano existem sombras da verdadeira realidade, que estão, considerado por ele, no mundo das ideias. A proposta seria a de nos desenvolver, a partir da busca de si mesmo, tão estudada por Rollo May no livro O Homem a Procura de Si Mesmo. E daí vamos nos deparar com a genuinidade do ser, com a força e a fragilidade o constituindo. É a nossa ambiguidade a estabelecer a singularidade, onde a comparação e a idealização do “outro” tornam-se absurdas, alienantes. Só nos tornamos inteiros quando aceitamos essa ambiguidade com a qual somos formados. Esse mergulho no interior do nosso ser nos torna semelhantes aos demais, não iguais, saindo da padronização, da normatização, da rivalidade e da competitividade, para sermos solidários. Voltando à condição de ilusão, a que todos estamos submetidos, ponderamos que se não nos constituirmos como ser da autenticidade, ao perdê-la, entramos na depressão, no vazio existencial, na desilusão, o grande mal presente em nossos tempos. Fiodor Dostoiévski, em Crime e Castigo, nos alertava: “Aquele que não descobrir por si mesmo o que é permitido e proibido para a sua vida, acaba por se submeter às permissões e proibições vigentes”. Ou seja, nos tornamos um Zé Ninguém, um nada, a que nos fala Jean Paul Sartre. Isto é trágico, não? O leitor, a esta altura, deve se perguntar: “qual seria a saída, o êxito?” Duas possibilidades se apresentam: de um lado, a ilusão, com o ter predominando sobre a busca do ser - o meu corpo sarado e tatuado, o meu apartamento de luxo, o meu carro do ano importado, as roupas de marcas conceituadas, o meu status social, o meu dinheiro no banco etc, Como se tudo isso se constituísse num prestígio pessoal. Dessa forma, pareço que sou eterno, pois tenho a condição de poder e de ter o controle de tudo. De outro lado, a realidade, onde nos deparamos com a nossa instabilidade, insegurança e fragilidade, e quando descobrimos que só o “eu” é responsável por dar sentido e construção à nossa vida. Daí surge a importância de viver o aqui e agora, sabendo que só o presente existe e que o futuro é incerto, pois a vida é efêmera e a finitude, a morte, nos pertence. Nesse sentido, a rivalidade se atenua, a nossa idealização e a do outro acabam, e assim caminhamos em direção à fraternidade tão aspirada, onde o dividir o pão nos torna companheiros, pois nada possuímos além da capacidade de ser, amar e nos doar. *Arlindo Salgueiro. Psicólogo clínico e psicoterapeuta