A escritora Isabel Allende (Divulgação) Um dos movimentos mais delicados de um escritor talvez seja voltar-se para a própria vida e descobrir nela não apenas acontecimentos, mas as raízes de sua literatura. É esse movimento que Isabel Allende realiza em A Palavra Mágica: uma vida escrita, livro que será lançado brevemente no Brasil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Depois de tantas histórias vividas na fronteira entre memória e ficção, a autora de A Casa dos Espíritos nos conduz pelos bastidores de sua trajetória, mostrando como memória, imaginação, dor e esperança podem transformar-se em matéria literária. A obra situa-se entre a autobiografia e a reflexão sobre o ofício de escrever. Allende revisita a juventude no Chile, os primeiros anos no jornalismo, o exílio na Venezuela e o nascimento de seu primeiro grande romance, escrito a partir da carta que começou a endereçar ao avô. Mas não se limita a reconstituir fatos. Ao rememorar, procura também compreender a mulher que foi e a escritora que se tornou. Acredito que esteja aí uma das maiores forças do livro. Lembrar não significa apenas retornar ao que passou. A memória, quando encontra a palavra, transforma a experiência. O acontecimento vivido torna-se narrativa; a dor pode encontrar um sentido; aquilo que parecia perdido ganha uma nova forma de existência. É nesse território entre o vivido e o imaginado que a literatura encontra uma de suas maiores possibilidades. Allende não apresenta a escrita como um conjunto de técnicas ou um caminho seguro. Fala de dúvidas, fracassos, perdas e descobertas, revelando que escrever exige tanto disciplina quanto escuta, tanto imaginação quanto experiência. A palavra parece ter o poder de invocar o que ainda não existe e, ao mesmo tempo, de dar nova existência ao que já foi vivido. A perda da filha Paula e as experiências do exílio conferem à obra uma dimensão especialmente comovente. A palavra surge não como fuga da realidade, mas como possibilidade de atravessá-la. Escrever torna-se uma forma de elaborar a ausência, preservar a memória e reconstruir pertencimentos. Há também uma generosa conversa com aqueles que desejam escrever. Allende não ensina por meio de fórmulas; compartilha, antes, uma atitude diante da criação. Seu ensinamento parece residir na confiança de que toda história merece ser procurada e de que a imaginação pode abrir caminhos onde a realidade deixou portas fechadas. A Palavra Mágica é, assim, mais do que o relato de uma vida dedicada à literatura. É uma reflexão sobre o poder transformador da palavra. E talvez seja essa a verdadeira magia anunciada pelo título: descobrir que uma palavra, quando encontra quem saiba escutá-la, pode transformar uma experiência em memória, uma perda em narrativa e uma vida em literatura. Taís Curi. Jornalista, escritora, doutora em Ciências da Comunicação e membro da Academia Santista de Letras.