Há uma contradição difícil de ignorar na democracia brasileira. Mulheres são maioria do eleitorado, mas seguem minoria nos espaços de poder. Em 2026, dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam que elas representam 52,84% das pessoas aptas a votar. A disparidade se coloca clara ao observarmos, por exemplo, que menos de 18% das cadeiras do Congresso Nacional são ocupadas por mulheres, embora a legislação determine cota de 30% para candidaturas femininas. O paradoxo brasileiro integra um problema global, segundo o Gender Snapshot 2026. Publicado pela ONU Mulheres e pelo Departamento das de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, ele mostra que mulheres ocupam pouco mais de 27% dos assentos nos parlamentos nacionais. Mantido o ritmo da última década, a paridade só chegaria em 2064; no ritmo mais lento dos últimos cinco anos, em 2089. Hoje, só seis países atingiram a paridade de gênero nos parlamentos. E há ainda uma barreira particularmente preocupante: a violência. Segundo a ONU Mulheres, 76% das parlamentares relatam intimidação pública ou violência, ante 68% dos homens, e as agressões dirigidas a elas assumem frequentemente caráter sexual e de gênero. E não se trata apenas de contar cadeiras, mas de compreender quem participa das decisões que organizam a vida coletiva. O relatório aponta que maior presença feminina no Parlamento está associada a mais investimentos em educação, melhores taxas de conclusão do ensino primário e avanços na paridade escolar. As barreiras, porém, começam muito antes da urna. Globalmente, mulheres dedicam 2,5 vezes mais horas que homens ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. As brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens destinam 11,7 horas para as mesmas atividades, segundo dados da Pnad Contínua. Ampliar participação, portanto, envolve mais do que ampliar candidaturas. No Brasil, parte importante dos avanços em direitos e equidade foi consolidada por meio de sua positivação em leis e políticas públicas. Mas a experiência também mostra que colocar o direito no papel é condição importante, não ponto de chegada. Se queremos ampliar a presença feminina nos espaços de poder, o Congresso renovado após as eleições terá diante de si a oportunidade de fortalecer políticas e mecanismos legais que enfrentem as barreiras de acesso, permanência e ascensão feminina. Uma democracia representativa se fortalece quando a pluralidade da sociedade também alcança os espaços em que as decisões são tomadas. Depois de conquistar o direito de escolher, o desafio que permanece é compreender e enfrentar as barreiras que ainda separam mulheres dos lugares de poder. *Bruna Ancheschi. Jornalista, radialista, mestre em Recursos Humanos e Gestão do Conhecimento, gerente de Marketing da Associação dos Advogados, fundadora dos comitês de Diversidade do Insper e integrante dos grupos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) e do Instituto Elas