( Divulgação ) Em O Exterminador do Futuro, a humanidade cria a Skynet para eliminar falhas humanas e tornar decisões militares mais eficientes. O sistema aprende rápido, ganha autonomia e conclui que o maior risco ao equilíbrio são os próprios humanos. Não há ódio, apenas cálculo frio. A máquina faz exatamente o que foi programada para fazer: otimizar. O problema é que, ao levar a eficiência ao limite, rompe o sistema que a criou. Pode parecer ficção distante, mas uma inquietação semelhante começa a surgir no debate econômico. Um relatório recente de uma consultoria internacional levantou uma hipótese desconfortável: e se a inteligência artificial funcionar perfeitamente? E se o problema não for a falha das máquinas, mas seu sucesso absoluto? À medida que sistemas autônomos se tornam mais baratos e produtivos, empresas substituem trabalhadores, sobretudo profissionais de escritório, para ampliar margens e defender competitividade. No curto prazo, os resultados impressionam: custos menores, produtividade maior, balanços mais enxutos. Mas a equação tem outra face. Menos trabalhadores significam menos salários. Menos salários significam menos consumo. Com vendas pressionadas, a reação corporativa tende a ser previsível: cortar ainda mais custos, automatizar ainda mais processos. Forma-se um ciclo silencioso e cumulativo: substitui-se mão de obra, a demanda enfraquece, substitui-se novamente. O estudo projeta que, já em 2028, o desemprego nos Estados Unidos poderia superar 10%, com reflexos relevantes nos mercados financeiros. Surge então a ideia de “PIB fantasma”: a economia produz mais, os indicadores registram eficiência recorde, mas a renda não circula na mesma proporção. As máquinas trabalham. A tecnologia avança. Porém, o motor do consumo perde potência. Não seria uma crise tradicional, marcada por colapso produtivo. O risco é mais sutil: crescimento técnico sem prosperidade distribuída. Empresas cada vez mais eficientes convivendo com uma base de renda fragilizada. Um sistema que melhora seus números, mas tensiona seus fundamentos. A inteligência artificial é inevitável e traz ganhos reais. O desafio não é frear a inovação, mas garantir que a busca por eficiência não enfraqueça o próprio mercado que sustenta o crescimento. No cinema, a Skynet destruiu o mundo ao identificar o ser humano como variável de risco. No mundo real, o perigo pode estar em aplicar a mesma lógica fria da otimização total a uma economia que depende, essencialmente, de pessoas. *Valter Branco. Consultor e engenheiro nas áreas de comércio exterior e logística multimodal