Sou um caminhante compulsivo — desses que andam com entusiasmo e prestam atenção aos detalhes do caminho. Também sou um observador atento: costumo guardar com facilidade a fisionomia das pessoas que cruzam por mim. Talvez por isso, uma cena em particular tenha ficado gravada na minha memória. Depois de despachar algumas cartas na agência dos Correios, eu voltava pela Rua Júlio de Mesquita quando me deparei com uma imagem que me tocou profundamente. Parei a caminhada sem saber o que fazer. Ao lado de uma lixeira, havia uma mulher jovem, descalça, com a calça e a blusa rasgadas e sujas. Com as mãos cheias de restos de comida, ela levava tudo à boca com desespero, como se estivesse diante de uma refeição suculenta, e não de restos retirados do lixo. De repente, nossos olhos se cruzaram. Por alguns segundos, vi seus olhos arregalados me encarando. Naquele instante, tive a impressão de que ela estava possuída pela fome — uma fome que consumia seu corpo e sua mente. Então saiu correndo, assustada, como quem foge de um perigo. Virou a esquina e desapareceu no meio dos pedestres e dos carros. Segui minha caminhada ainda pensando naquela imagem triste: uma jovem exposta a tanta miséria, enquanto tantas vezes desperdiçamos comida ou comemos apenas por gula. A lembrança não me deixou em paz. Cheguei a tirar meu automóvel da garagem para dar uma volta pelo bairro, na esperança de reencontrá-la. Minha ideia era acionar o serviço social e tentar oferecer alguma ajuda. Mas não a encontrei. Não sei se verei aquela moça outra vez, mas gostaria muito de reencontrá-la em uma situação melhor. Infelizmente, há muita gente vivendo assim, espalhada por esse mundão. Diante daquela lixeira, a realidade me jogou na cara o mesmo choque na alma que Manuel Bandeira eternizou em O Bicho, ao descrever alguém “catando comida entre os detritos” e concluir, de maneira devastadora: “O bicho, meu Deus, era o homem”. O poema de Bandeira foi escrito em 1947. Estamos em 2026, quase 80depois, e a ferida social continua aberta. As eleições estão aí, os discursos políticos começam a inundar as ruas, e a minha esperança é que esse cenário de horror finalmente acabe. Não podemos aceitar que, tanto tempo depois, a fome ainda reduza seres humanos à condição de bicho diante dos nossos olhos. A pressa da vida tenta esconder essas cenas, mas o voto e a nossa humanidade ainda são as ferramentas que nos restam para que, quem sabe um dia, nenhum ser humano volte a ser confundido com bicho. *Sergio Rezende Peres. *Cronista e contista