Eu tinha 10 anos quando concluí o Curso Primário, no Grupo Escolar Estadual Dr. Cesário Bastos, em Santos. Queria começar a trabalhar, imaginando usar o uniforme dos “patrulheiros” do Camps, cuja sede ficava ao lado do prédio onde morávamos. Não sabia que eles também estudavam, e muito! Meu pai, ignorando minha intenção, me inscreveu para prestar exame de admissão ao curso ginasial na Escola Estadual Professor Primo Ferreira. Fiquei impressionado com o edifício de dois andares, próximo ao Estádio Urbano Caldeira, na Vila Belmiro, inaugurado em 1968. Suas salas eram amplas e bem iluminadas, assim como o pátio, no térreo. Assim como duas outras escolas estaduais de Santos, o acesso ao Primo Ferreira era mediante aprovação em exame de admissão. Eram escolas públicas que rivalizavam com as melhores instituições de ensino particular. Meu pai fazia parte da atuante Associação de Pais e Mestres, que ajudava a zelar pela qualidade do ensino e das instalações. Nas férias, os alunos eram convidados a fazer manutenção das instalações, o que muitos faziam com prazer. Além das matérias convencionais, tínhamos aulas de francês, música, desenho e artes industriais! Os professores dominavam suas disciplinas e se esmeravam em lecioná-las com qualidade, avaliando nosso desempenho com rigor. Ficar de “segunda época”, Conselho de Classe ou reprovação eram os destinos para quem não se empenhasse. Os professores estavam ali para ensinar e os alunos para estudar! Concluído o Ginásio, meu pai sugeriu que eu prestasse “vestibulinho” no Colégio Técnico Industrial de Santos (atual Aristóteles Ferreira). Cursei Edificações. Comecei a trabalhar aos 15 anos, já na área, quando não existia nada de “jovem aprendiz” ou ECA, remunerado como adulto e economizando para cursar Engenharia Civil. Começava a concretizar meus sonhos! Desde então, nunca parei de estudar, contrariando minha intenção, aos 10 anos. Reencontrei minha turma de ginásio em 2004, 30 anos após nossa formatura. Havia formados em engenharia, física, enfermagem, professores, construtores e especialistas em várias áreas, bem situados profissionalmente, prósperos por mérito. Não lembro de nenhum que fosse de família abastada ou que tivesse sido esnobe ou arrogante. O que tínhamos em comum era a sólida e atenta formação familiar, como era padrão em nossa infância e juventude. O Primo Ferreira contribui com “régua e compasso” para projetarmos nosso futuro, tendo o estudo e o mérito como premissas. Que ele continue a ser essa inspiração para quem nele se formar, sob a égide de mestres que lecionem suas disciplinas com a responsabilidade que a docência exige! *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras