(Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Todos os anos de nossa vida são importantes, mas o primeiro, no desejo familiar de sermos felizes, é motivo de comemoração inesquecível. Para os que nascem em famílias simples, com pequenos proventos, a festa se resume em abraços. E basta. Assim foi na infância dos que nasceram em Santos, nas ruelas próximas ao Mercado Municipal, mas que tiveram o privilégio de caminhar pela Avenida Conselheiro Nébias, encantando-se com os belos casarões que abrigavam as famílias mais ricas e tradicionais da cidade. Adentrando a Rua Sete de Setembro para chegar à Escola Portuguesa e mais tarde, ao Liceu Feminino Santista, era eu tão menina, a espiar pelas grades de ferro, o azulejado branco e azul das paredes e da imagem de Nossa Senhora da Conceição, protetora dos moradores do magnífico casarão desde 1900. Na adolescência, o mato toma conta do solar e da nossa memória. Restaram apenas as marcas dos pratos e quadros nas paredes. A certeza do renascimento do casarão acontece muito tempo depois, em 19 de abril de 2024, quando o prefeito Rogério Santos entrega oficialmente o novo espaço, destacando a tradição da Cidade de formar grandes artistas e que o acesso à cultura gera oportunidade e trabalho. “Essa casa terá as portas abertas para quem já gosta de arte e também para quem quer conhecer. Será um espaço de inclusão”. O sentido afetivo da palavra ‘casa’ é o lugar destinado à construção de relações, vínculos, como um reservatório de lembranças que, a qualquer momento, um detalhe, um cheiro, um objeto, um olhar, são rapidamente evocadas e se apresentam da maneira como as ressignificamos. O curador da Casa das Culturas de Santos, escritor e poeta Flávio Viegas Amoreira, cumpre o que disse na inauguração: “Cultura não é privilégio, é um direito de todos”. E torna a casa um local de acessibilidade cultural, com foco na população do bairro e das proximidades. No próximo sábado, primeiro aniversário da Casa, vários artistas da cidade, academias, grupos de poesia e músicos devem homenagear a ‘nossa’ casa e o poeta santista Vicente de Carvalho, que nesta data completa 101 anos de sua morte. E revisitar a exposição Vicente de Carvalho, outra ao maestro e compositor Gilberto Mendes, além do espaço restaurado. Ao caminhar pelos jardins, o canto dos pássaros nas árvores centenárias é um convite. Lembramos que os locais históricos servem como salas de aula ao ar livre, proporcionando oportunidades educacionais valiosas. Adentramos a casa, que nos acolhe feito um útero primevo aberto. Ao preservar e manter esses locais acessíveis ao público, a Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams) e o incansável e dedicado curador Flávio Viegas Amoreira dão notável impulso à aprendizagem contínua sobre a história, incentivando o respeito pela diversidade cultural e pela evolução da sociedade ao longo do tempo. A visita de alunos das escolas da Vila Nova e de outros bairros será um presente especial para a nossa Casa das Culturas, patrimônio histórico cultural. Desenvolvendo apreço pela sua preservação, lembramos que esse convívio é fator decisivo para a formação das nossas identidades. Que venham todos que habitam estas plagas! A casa vos espera! *Escritora, membro das Academias Santista de Letras Casa de Martins Fontes e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios