(Matheus Tagé/Arquivo AT) Uma enchente para não esquecer. Contudo, será cada vez menos marcante ou sazonal a última enchente, deslizamento ou evento climático extremo. Desprezamos nossa culpa no aquecimento global com nossos hábitos de consumo e predação da natureza por três fatores: inércia, ambição ou ignorância. Caminhamos para o suicídio coletivo, como os troianos renegando as profecias de Cassandra. Não é teu Deus te castigando, não é a natureza como entidade se sublevando autônoma em fúria. Fomos nós, em séculos enfeitiçados pela ideia de progresso. Acreditar num crescimento infinito num planeta limitado é de uma arrogância estúpida. Serão as cidades artificial e desordenadamente construídas a padecer com mais intensidade à crise estrutural que nos leva da prevenção pouco eficiente e do caos instalado até o chamado colapso irreversível. Como pensar numa nova ligação rodoviária, na expansão de um porto assoreado ou evitar o avanço do nível do mar sem ater-se à entropia de todo um sistema com poucas ou nenhuma alternativa? Os franceses já dão um nome à superdisciplina de gestão futura: colapsologia. Como manter ou resgatar algum “respiro” em metrópoles claustrofobicamente impermeabilizadas, desnudas de vegetação e cortadas por corredores de calor sufocante? As pesquisas revelam tristemente que meio ambiente não é prioridade em nenhum estrato social. O que esperar de gestores que percebem o descaso da população para temas tão “sofisticados” e distantes quanto ecologia e vida habitável? Nas campanhas eleitorais, arborização, regeneração de nascentes, importância das sombras são questões de um silêncio ensurdecedor. Quantas vezes você lutou pelas árvores da tua esquina? Quantas vezes seu município implementou um plano severo a coibir os excessos do transporte individual? A luta pela descarbonização vai nos exigir lideranças antipáticas ao desperdício. Percebam que os conceitos de Trump e Lula, antípodas ideológicos, empatam na insânia petrolífera: perfurar, perfurar, perfurar. Para consumir, consumir, dilapidar. Se algo salva da biografia de Truman, é a seguinte frase: “A liderança é a capacidade de conseguir que as pessoas façam o que não querem e gostem de o fazer”. O que é preciso para salvar nossas cidades ? Exigir consumo consciente, frear desenvolvimento insustentável não se render a selvageria grandes corporações. Ressignificar progresso. É simpático pedir que esse mundo pare? O tempo escoa. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos