(Pixabay) Há algum tempo, vinha percebendo que minha incapacidade de compreender o mundo atual não se restringia ao fato de não assimilar com naturalidade o hipismo vegano — realizado sem cavalos. O tempo passou e agora, como adulto maduro e sem qualquer déficit cognitivo, tenho a convicção de que preciso de uma boneca. Não quero dessas hiper-realistas e que custam caro. Penso em custo-benefício, busco uma de pano. Não pretendo trocar fraldas, levá-la ao hospital ou passear com ela no colo. Irei deixá-la permanentemente sentada no criado-mudo ao lado da cama. Quando empoeirar, algumas palmadas (espero que ela não se magoe) e breve exposição ao sol devem resolver. Ao deitar, antes de orar e conversar com Deus, dialogarei com minha boneca. Na verdade, serão monólogos, pois me faltam o dom de imitar voz de criança e a criatividade para, de forma autônoma, responder a mim mesmo. Quero apresentar à futura confidente as impressões mais íntimas, mesmo aquelas que, por respeito ao caro leitor, não revelo em crônicas. São tantos assuntos: o Dia da Cegonha Reborn, aprovado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, e o CarnavAU Pet, discutido pela Câmara Municipal de João Pessoa. Falarei também sobre therians — estou ansioso para lhe contar sobre a passeata de centenas de pessoas que, utilizando máscaras de cachorro, latiam e colocavam a língua para fora da boca, e o campeonato de imitação de gaivotas com participantes a caráter, ambos eventos realizados recentemente na Bélgica (será que há algo de errado com a batata frita ou o chocolate por lá?); objetófilos — como são sensíveis e amorosos os humanos que, simbolicamente, casam-se com a Torre Eiffel, ou possuem uma dezena de lavadoras de roupa e as tratam como filhas; e sologâmicos — ah, tão impressionante o caso da moça que, um ano após se casar com ela mesma, acabou se divorciando. Quando adquirir confiança suficiente, vou revelar à boneca que alcancei o Nirvana e entendo minha deficiência: tornei-me anacrônico, como válvula para TV tela plana. Sei que esse ser inanimado (acho que irei chamá-la de Sã — não cogito nome mais apropriado) irá transformar meu approach ao me fazer compreender que mamães-reborn, therians, objetófilos e sologâmicos não apresentam qualquer distúrbio psíquico, nem se trata de insanidade coletiva. Bastarão algumas poucas noites na companhia de Sã para descobrir esse mundo repleto de “normalidades distintas”. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor