[[legacy_image_359243]] Santos sempre foi considerada como cidade de esquerda. Recebeu títulos famosos, como Moscou Brasileira, Porto Vermelho, Barcelona Brasileira. Há importantes antecedentes históricos: lutas pela abolição e pela República; primeira comemoração do 1º de maio no Brasil, em 1895; greves e forte movimento sindical; vitória dos candidatos progressistas nas eleições livres do século 20. O que teria acontecido, então, nas duas ou três últimas décadas? Por que Santos tornou-se uma cidade onde a direita – e mais recentemente o bolsonarismo – cresceu de modo inesperado, mas vigoroso? Para responder a essa pergunta, recorro a duas matrizes explicativas. A primeira delas é estrutural e de natureza política; a outra é mais sociológica. De um lado, aconteceram, no final do século 20, mudanças importantes no panorama internacional. A queda do Muro de Berlim, em 1989, representou a derrocada do chamado socialismo real soviético, e abalou fortemente a esquerda mundial. A utopia de transformação social e a mudança efetiva do paradigma capitalista caíram por terra. Não é, portanto, surpresa o recuo dos partidos identificados com a esquerda por todos os lados. No caso brasileiro, somou-se ainda a crise do PT, a legenda que representava tais ideais. Os escândalos (mensalão, petrolão), mesmo que possam ser reinterpretados hoje, significaram perda de prestígio e votos do partido. O impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido muito mais em função da profunda crise econômica que o Brasil atravessava (e, de certa forma, consequência das decisões e políticas adotadas por ela), agravou ainda mais o quadro. O século 21 trouxe ainda importantes modificações: crise e redução de espaços do movimento sindical; descrédito das instituições tradicionais; avanço da antipolítica, cujo marco são as manifestações de 2013, caracterizadas pela negação e desprezo dos políticos, vistos como nefastos e corruptos. Tal cruzada moralista, que não é inteiramente nova (veja-se Jânio Quadros e Fernando Collor), alimentou bastante o discurso à direita. Este, por sua vez, ganhou força com as mídias e redes sociais, alimentadas por fake news, mas com grande apelo nas massas. Há em Santos o aspecto sociológico. Aqui sempre prevaleceram as camadas médias (o comércio, em 1913, já era a categoria que mais empregava pessoas), mas é preciso distinguir a classe média tradicional da nova classe média. Esta, que se desenvolveu durante o século 20, baseada no comércio, serviços e funcionalismo público, tinha raízes e ligações históricas e familiares com a classe operária; daí uma aliança tácita que valeu por muito tempo. O cenário alterou-se, entretanto. Esta classe média emergente afastou-se das origens e assumiu valores e perspectivas muito mais conservadores. Além disso, a crise que se abateu na cidade no final do século 20 afetou profundamente essas pessoas. É natural, portanto, seu descontentamento e revolta, e sua aproximação com a contestação absoluta da política e a absorção de valores mais à direita. A hegemonia da esquerda em Santos nunca representou a ausência de ideias à direita. Elas sempre existiram, e nos últimos anos se beneficiaram da adesão de segmentos de classe média descontentes “com tudo que está aí”, em busca de saídas imediatas e radicais, que a direita oferece com muita avidez. Fica, entretanto, a pergunta: isso é definitivo? *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna