(Imagem ilustrativa/Pixabay) Lá se foram 54 anos e ainda não possuo habilidade mínima para desenhar. Comigo, pessoas tomam forma no papel por meio de um círculo – nem tão circular – representando a cabeça e cinco traços representando tronco e membros. Minha filha, Isabela, desenha com excelência – apenas um registro de pai coruja. Careço de tantas outras habilidades. Entre as carências, está a de dissimular a frustração com pessoas que, apaixonadamente, empenham-se em explicar, com a convicção que só os insanos têm, que a Terra é plana, ou que o Sol não é quente (mais recente absurdo que ouvi por aí). Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Talvez o fato de desenhar de maneira sofrível tenha me empurrado para o hábito de escrever. Não consigo opinar sobre tudo – dom reservado exclusivamente a alguns artistas que, durante entrevistas, discorrem sobre política internacional, economia ou qualquer outro tema de “pouca” complexidade. Também não me sinto inclinado a escrever poesias. Apesar de ser, por convicção, contrário à ideia de se encontrar culpados para nossos erros ou deficiências, creio que a realidade do País me castre a inspiração para escrevê-las. Nutro grande admiração por poetas que, aqui vivendo, tiram leite de pedra. Escrevo numa espécie de terapia com o caro leitor, sobre quem, embora não consiga formar uma imagem corpórea em minha mente, atrevo-me a dizer que conheço um pouco como pensa (fruto dos comentários que recebo sobre as crônicas). Com frequência, registro inconformismo com a “estupidez normalizada em larga escala”. E procuro ser autêntico com o leitor. Aliás, tentar enganá-lo exigiria curvar-se à premissa de que possui certa inferioridade cognitiva. Não creio nisso. Não simulo ser dotado de imparcialidade absoluta, o que inexiste em nós. Ainda que nos esforcemos para agir de forma isenta, nossas convicções – incluindo as inconfessáveis – pendem para um lado da balança e ditam nossas ações. Vale repetir o exemplo mencionado há algum tempo em outra crônica: um juiz cristão julgaria alguém que profana um templo religioso da mesma maneira que um juiz ateu? Deveria, mas, seguramente, não o faria. Diante dessa inatingível imparcialidade, acabo me posicionando com base no que acredito, sob o crivo de críticas ou aplausos. É fundamental nos posicionarmos sobre temas que impactam nossa vida, mas livres da arrogância de ter, necessariamente, solução para todas as mazelas, como quem, entre um gole e outro, anota ideias num guardanapo de papel enquanto se reúne com amigos num boteco. Não escrevo para gerar cólera, nem desconforto, apenas reflexão sobre problemas sabidamente crônicos. Por que deveríamos nos conformar com grau de desenvolvimento muito aquém do que seria natural diante das dimensões do país, suas riquezas e tamanho da população? Nosso nível de desenvolvimento social é ofensivo, antinatural. Há muitas opções em busca de avanços, nem todas ortodoxas, nem todas legítimas, nem todas democráticas. Para levarmos o País a outro patamar, a única saída na qual aposto fichas passa pelo aperfeiçoamento do voto: do meu, do seu, do nosso. E para que isso ocorra, é preciso reflexão. Escrevo com a pretensão de estimulá-la.