(FreePik) William Faulkner disse que “a literatura acende um fósforo no meio da noite”. Concordo com ele, pois estou convencido que, por emoldurar percepções e sentimentos, escrever acaricia o espírito e conforta a existência. A arte de escrever descreve sentimentos e alivia a solidão, pois, nos intentos de significância e pertencimento, as almas refletem fértil e profundamente, mas oralizam menos do que pensam. Nessa dualidade, os sentidos entregam histórias e ricas percepções, que, todavia, se desvanecem na experiência vivencial corriqueira. Assim, num funil cognitivo-memorial dramático as melhores narrativas escapam, fazendo com que uma proporção irrisória de seres consiga escrever frações mínimas do que escutam, pensam e falam. E sobretudo, sentem. Escrever é unir os achados da imaginação enfileirando palavras que reflitam as emoções da alma. Requer coragem e ousadia expor sentimentos, conceitos, valores, levantar a casca e adereços, ficando nu na pluralidade das íris leitoras. Trata-se de ato criativo de uns nas intimidades sentimentais dos outros, criando um sensível laço de cumplicidade, exatamente como definiu Paul Auster: “A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se sozinho. Lê-se sozinho. E, apesar de tudo, o ato da leitura permite a comunicação de dois seres humanos”. Em processo de pura liberdade, as palavras alçam voo e como metal líquido assumem novos contornos, já que o ato de “roçar a alma” do leitor imprime significados de sólida permanência, como diz o ditado latino: Verba volant, scripta manent (“palavras faladas voam, palavras escritas permanecem”). Escrever é um ato político na direção da advertência de Flaubert: “Os críticos escrevem críticas porque são incapazes de ser artistas, assim como um homem inabilitado para o uso das armas se transforma em espião da polícia”. Flaubert nos conclama a “sujar as mãos” (metáfora para escrever), pois como confidencia Romain Gary: “Em vez de gritar, escrevo livros”. Adiciono Federico Garcia Lorca: “Quando o famoso escritor russo Fiodor Dostoievski era um prisioneiro na Sibéria, l ele apenas disse; “me mandem livros, livros, muitos livros para que minha alma não morra”. Por fim, Saramago nos lembra que: “A razão por que se abre um livro para ler é a mesma porque se olham as estrelas: querer compreender. Sempre haverá alguém para abrir comovido um livro, para querer saber o que está por trás das aparências. Cada livro é uma viagem para o outro lado”. Boa viagem, portanto! *S.Squirra. Jornalista, ex-docente da ECA/USP e escritor