(Arquivo/AT) Como disse Rita Lee, tão apropriadamente, “mulher é bicho esquisito”. Em todas as fases femininas, existe algo que nos destaca dos demais seres. Não, por favor, não entendam isso como chavão contra os homens. Nada disso. É que a natureza nos brindou com uma forma diferente de viver e entender a vida. Pena que fomos, historicamente, impedidas de exercer, com naturalidade, “um sexto sentido maior que a razão”. Fomos jogadas nas fogueiras. E, pasmem, nem o fogo nos impediu de transmitir às gerações seguintes, conceitos e experiências pessoais que se transformaram no fazer-se mulher, como Simone de Beauvoir tanto insistia. Chegamos ao século 21 e ainda somos atormentadas por comportamentos etaristas e violento da sociedade que teima na divisão “estas” e “aquelas”. Na adolescência, nos controlam para não passarmos do limite. Na vida adulta, somos esse limite. Somos o medo de envelhecer, de não sermos aprovadas porque nosso corpo muda ou tem dificuldade em se manter com a imagem que colocaram em nossa cabeça. “Nas duas faces de Eva, a bela e a fera” poderiam conviver pacificamente, se não fosse uma cultura forjada na visão de mundo masculina. E, justo quando aprendemos a ter autonomia no pensar, a biologia nos brinda com o susto da menopausa. Digo “susto” porque, para algumas, ela chega tão cedo, ainda na casa dos 30 anos, como se dissesse: “olha, agora para de graça. Vamos colocar água fria no fervor de suas emoções”, que chegam à flor da pele. “Meu corpo, minhas regras”: nada mais distante da realidade do calor que chega nas horas mais indesejáveis. O corpo adquire vida própria, enquanto o coração ainda é da menina sonhadora e a mente também viaja por lugares desconhecidos. “Gata Borralheira, você é princesa”, como se o título de nobreza suavizasse rugas, flacidez, celulite. Mas, eis que a medicina estética chega com um “engana tempo”: o botox suaviza marcas de expressão que nos cansam o rosto; o preenchimento alivia a perda de volume da face e lábios; o laser traz alívio ao corpo quando exposto, mesmo que discretamente. Em um espaço que só a mulher conhece, permanece sua essência inatingível, sem plateia, sem aplausos. Se ela conseguiu transpor tantos absurdos culturais e sociais é porque ser mulher não depende de fases definidas. Somos um mundo que o mundo ainda não conseguiu dobrar. *Gabriella Moreira. Advogada e vice-presidente da Comissão de Prerrogativas Cíveis da OAB Santos