(FreePik) Era uma tarde ensolarada de primavera. Na rua, banhistas felizes iam e vinham da praia do Boqueirão. Da janela do meu apartamento, observei, animado, o movimento de um casal de pombas em lua de mel. Namoravam muito e se beijavam freneticamente. Sem pedir licença, embaladas pelo amor, instalaram-se na floreira, junto à janela, e começaram a construção de sua casa. Procuraram gravetos e não encontraram o material habitual para suas construções. Estava em falta. O tempo urgia. Eram pombas evoluídas e resilientes. Em substituição aos gravetos, que os garis retiraram da rua, trouxeram pedaços de arame de construção e fizeram seu ninho. Um pensamento selvagem passou pela minha cabeça: poderia destruir o ninho e não dar guarida aos invasores. Mas, assim, meus filhos pequenos perderiam uma excelente aula da "escola das pombas". Deixei-as em paz — afinal, elas simbolizam isso. Dessa forma, as crianças acompanhariam a evolução dos filhotes e apreciariam a natureza. Chamei-os para observarem a confecção do ninho. Encantaram-se com a construção. As pombas puseram dois ovos, acomodaram-se sobre eles e dormiram. Expliquei o que significa “chocar”. Contei que demora de 15 a 20 dias para nascer. Passado esse tempo, os ovos se abriram devagar, pareciam quebrados e, por encanto, saíram passarinhos despenados e “empenujados”, de olhos fechados. Abriam o bico, famintos. Recebiam comida do bico dos pais e continuavam pedindo mais. Pareciam ter sempre fome. Em poucos dias, apareceram penas que foram crescendo. As das asas eram diferentes, mais compridas. Sujavam a casa deles. Não parecia haver ninguém para limpar. Dia a dia cresciam mais, e um empurrava o outro dentro do ninho, até que saíram e começaram a andar no beiral do apartamento. Tremiam. Não sei se por medo, se as pernas eram fracas, ou se estavam com frio. A mãe não me contou nada. Acompanhava-os. Amparava-os com as asas. Estaria superprotegendo os filhotes para que não caíssem, ou incentivando-os a ensaiar voo? Ela batia as asas neles. Ficou o dia inteiro treinando, até que um, mais corajoso, voou para uma areca-bambu no jardim. Mais tarde, o outro aterrissou no gramado. Aquilo me fez pensar: A mãe, batendo com as asas, estaria estimulando a voar ou protegendo para não caírem? Esqueci de perguntar a ela se os filhotes teriam se comportado mal e estariam levando um castigo. *Augusto Zago. Médico e escritor