(Divulgação/Poli-USP) Sou, e sempre serei, engenheiro. Apesar da minha incursão em área bem distinta – a Ciência Política - e o afastamento da vida profissional no campo da Engenharia Civil, tenho satisfação e orgulho da formação que tive e do trabalho que realizei na área durante várias décadas. E as histórias e experiências da formação acumuladas continuam vivas e importantes. No final deste ano completo 50 anos de formado. Um jantar com os muitos colegas e amigos vai marcar a data nesta semana, e lá estaremos: mais velhos, mas certamente felizes e prontos para gostosas recordações. Eu era um menino, 17 anos recém-completados, quando prestei o exame vestibular para ingresso na Escola Politécnica da USP em janeiro de 1970. Os exames já eram unificados – não havia a Fuvest, mas sim a temida Mapofei (Mauá, Poli e Fei, associadas) na área de exatas, enquanto, nas Humanas e na Medicina, existiam o Cescea e o Cescem. Lembro-me bem das provas de acesso, difíceis e complicadas. Logo em seguida, do resultado – eu fora aprovado! – e o orgulho da vitória. Depois, a mudança na vida. O menino, tímido e retraído, sairia de casa, iria morar em São Paulo, e enfrentar o mundo. E lá fui eu, formar-me engenheiro; mas, muito mais do que isso, aprender a viver. Foram tempos de descobertas. Vivi em uma república com amigos de Santos, e tive que adaptar-me à nova rotina. Estudar na USP – em particular, na Poli – foi prova de fogo. Não bastava assistir às aulas, acompanhar os conteúdos. Era preciso ir além, e isso era fundamental. Sem o famoso “know-how de viração” o fracasso era certo. Explico: nada caía do céu facilmente. Era preciso, todos os dias, pesquisar, descobrir, inventar. E isso foi decisivo na minha vida. Até hoje sei que nada sei, mas nada me assusta. Aprendi que é possível, com esforço, paciência e determinação, buscar respostas e saídas para os mais espinhosos problemas que a profissão e a vida nos colocam. Vivi todo o roteiro de estudante: primeiro, o trote, com o passeio dentro do lago que circundava o “cirquinho”, onde as aulas do 1º ano ocorriam, e ser obrigado a dançar, com o rosto pintado e um pandeiro nas mãos, sobre a mesa do professor em sala de aula; depois, as muitas aulas, e as terríveis provas de Mecânica dos Fluidos e principalmente de Resistência dos Materiais, no 3º e 4º anos. Tive professores brilhantes, outros nem tanto. O balanço é, porém, muito positivo. Um engenheiro da Poli é racional, objetivo, claro em seus propósitos. Essa racionalidade me acompanha desde então, e sempre foi determinante em todas as atividades que desenvolvi, notadamente nas Ciências Sociais que abracei, nas quais há, muitas vezes, falatório e confusão, sem qualquer objetividade. Eram tempos difíceis aqueles em que eu era aluno da Poli. O país vivia a ditadura, a repressão, a ausência de liberdade – recordo-me do cerco da USP quando morreu o líder Alexandre Vannucchi Leme em 1973 – mas, reconheço, tudo isso pouco repercutia no nosso curso. Seja como for, o tempo passou. Formei-me em 1974, trabalhei como engenheiro civil durante mais de trinta anos, com entusiasmo pela profissão, construindo edifícios que eram projetos e ideias que viravam realidade. Cinquenta anos depois, uma certeza. Sem a Poli eu não seria quem sou. Ela moldou minha vida, meu caráter e meus sonhos.