(Unsplash) Falar de Olavo Bilac pode ser tarefa complexa. Escrevo sobre ele abordando outro prisma, diverso ao que encontramos nos livros. Vou relatar um fato, ocorrido na vida de Bilac, alheio ao seu talento poético indiscutível. Boêmio inveterado, um dia foi multado por “dirigir em alta velocidade” no Rio de Janeiro. A multa seria algo comum, não fosse por um detalhe: o “carro” era uma carruagem puxada por cavalos, e ele estava embriagado. Virou piada entre amigos e jornais da época. Caso quiséssemos comparar o motorista e seu veículo da época com os motoristas inconsequentes e apressados de hoje, há que se achar muita graça do episódio ocorrido com Bilac, às voltas com as autoridades de plantão no início dos anos 1900, a anotar a infração de trânsito aplicada a uma carruagem puxada por cavalos. Imaginei uma carruagem barulhenta com seus cavalos a relinchar em altíssimos decibéis, semelhante aos motores dos automóveis de hoje, os altíssimos volumes dos rádios dos carros atuais, naquela época, certamente, provocados por trompetistas no alto de antigos veículos. Casos de multa, certamente! E então volto ao presente. As multas agora surgem frias, calculadas por radares invisíveis. Não há conversa, não há poesia. Apenas números, pontos na carteira, boletos no correio. Sinto falta da cena antiga, em que a infração era quase um episódio literário, uma anedota que atravessou o tempo. Caso receba uma notificação, não há espaço para sorrir. É burocracia pura, sem metáfora. Mas ao lembrar Bilac, percebo que até a pressa pode ser transformada em crônica. Ele corria com cavalos; eu, com motores. Ele foi multado com tinta e papel; eu, com pixels e algoritmos. No fundo, a multa é sempre a mesma: um lembrete de que a vida tem limites, mesmo quando queremos ultrapassá-los. Só que Bilac conseguiu transformar sua infração em história. Ao escrever, tento dar poesia ao que é apenas regra. Escrevo como se pudesse ser herdeiro da multa de Olavo Bilac. Imagino o guarda de bigodes, papel na mão, anotando, solene: “alta velocidade em carruagem”. Quase vejo o riso escondido atrás da farda, porque multar cavalos é por si só, uma piada. Hoje, não há guarda, não há bigodes, não há papel. Há máquinas invisíveis, olhos frios que não piscam. O radar não ri, não ironiza, não conta história. Apenas registra. Bilac ganhou uma anedota, eu ganharia um boleto. Ele virou personagem de crônica. Eu, pura estatística. Ao receber minha multa, tentaria arranjar o que Bilac fez sem esforço: rir da pressa, rir da punição, rir da vida. Eu, simplesmente pagaria. Porque se o poeta foi multado com cavalos e virou história, eu também posso ser multado com motores e virar crônica. *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das academias Vicentina e Santista de Letras