[[legacy_image_275089]] Nesta semana comemoramos os 40 anos de vida literária do escritor, crítico literário e dramaturgo Flávio Viegas Amoreira, recebendo autógrafos no seu 17º livro, com o título Whitman & Pessoa, Meus Camaradas. Compõe uma geração de literatos muito críticos, com Santos que viveu momentos difíceis para ganhar voz e vez no pós-abertura política, final dos anos 70 e início dos 80. Nem todos somos órfãos da ditadura, mas sobreviventes do convívio da influência dela sobre os nossos pais e pares do movimento cultural, sindical e político, que teve muito significado e significância no cenário nacional. Nessa época, Santos perdeu muitos talentos para outros destinos, esgotados de ânimo e do estado conservador que torcia o nariz para os que ousassem contrapor a esses modos. E o que tem o Flávio Amoreira com isso? Tudo. Aparentemente tímido, nele sempre morou um poeta apaixonado pela geografia da nossa região, combatente do pessimismo elevado que reinava entre as muitas tribos das artes. A sua energia, a exemplo do que escreveu o poeta santista Vicente de Carvalho, vinha do horizonte da nossa orla e, principalmente, do mar, que para ele era “como o Céu para um crente”. Das idas e vindas que conheceu da história de Santos, através dos tempos, e que vamos conhecendo em golfadas nos seus artigos brilhantes, neste espaço de A Tribuna, considero Flávio Amoreira a expressão mais bem acabada do neologismo “santisticidade”, explicada como “essência varonil do civismo santista, cercada de carradas de otimismo, entremeadas de sol, brisa e mar”. Aqui na terra de Braz Cubas, José Bonifácio, Martins Fontes, Vicente de Carvalho, Patrícia Galvão, Plínio Marcos, Roldão Mendes Rosa, Jair Freitas, Gilberto Mendes e tantos outros, nascidos ou não aqui, jamais esconderam as suas lembranças do mar, porto, café, imigrantes, praias, teatro, música, literatura. Amoreira é o santista da gema, carrancudo às vezes com os desatinos da sociedade local, irônico da contradição com a cidade de Dubai, construída no meio do deserto, com tudo se encaminhando para a pujança e aqui, o mangue, o brejo. Se gaba de ter estudado nos áureos tempos do Colégio Canadá, onde passou os melhores anos da infância e juventude. Leitor contumaz, conhece detalhes das coisas percebidas pela sensibilidade poética, e é reconhecido pela crítica cultural, como “uma das mais inventivas vozes da Nova Literatura Brasileira”, mais aparecida na virada do século. Essa eloquente figura é também incansável na busca e no compartilhamento dos seus conhecimentos. Professor em oficinas literárias virtuais e presenciais, em Santos e em São Paulo, a sua militância é observada e aplaudida, com seus movimentos pela democratização da literatura e políticas públicas para a Cultura. Não podia deixar de registrar esse meu testemunho sobre alguém que está sempre incentivando e acudindo talentos que querem mais, além da publicação de um livro, fazer parte de uma Academia de Letras, agradar a tudo e a todos. Salve, Flávio, poeta santistíssimo. Aproprio-me de uma fala do agora saudoso amigo e poeta, como nós, Cláudio Willer, sobre você: “Seus textos internéticos pertencem à categoria dos monstros literários, desses que saem por aí dando sustos em passantes desavisados”.