[[legacy_image_291131]] A pandemia despertou certos discursos na imprensa, sob uma nuvem de suposta e sublime comoção, em que o conceito de invisibilidade foi utilizado quando se referia à população em situação de rua. A grande questão é que é o inverso: a extrema visibilidade que essa parcela da população ocupa nas ruas, nos viadutos e em todas as cidades brasileiras. Fruto de uma abolição inconclusa, essa população escravizada, por mais de 350 anos, não teve ação do Estado para garantia mínima de existência. Não houve políticas públicas e direitos. Muito pelo contrário, foi implementada uma perversa política de branqueamento: quem trabalhou sob o regime de escravidão não serviu para o trabalho assalariado, como escreveu Clóvis Moura em sua obra “O negro, de bom escravo a mau cidadão?”, além de a implementação de cruéis leis antinegros, que criminalizavam as origens, a cultura... Enfim, a existência negra, como na Lei da Vadiagem e a que tornava crime a capoeira. Segundo pesquisa realizada pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, foram registradas 206.044 pessoas nessas condições no Brasil até fevereiro deste ano, o que significa crescimento de 7,4% desde o último levantamento, feito em novembro do ano passado. Ainda de acordo com o estudo, sete em cada dez pessoas em situação de rua são negras, o que já dispensa grandes explicações: a proposital desigualdade e intencional marginalização acerca dos direitos dessa população. Por conta de determinantes sociais, sofrimentos mentais, frio, medo, abandono e outras expressões de questão social, parte dessas pessoas acaba fazendo uso abusivo de álcool e outras drogas, o que aumenta o preconceito e as ações de ódio contra elas. Basta lembrar por que é no dia 19 de agosto que se institui o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua: nesta data, em 2004, sete pessoas foram assassinadas e oito ficaram gravemente feridas enquanto dormiam na Praça da Sé, na região central de São Paulo. Aliás, realidade nesse local que em nada mudou, salvo pelas ações realizadas por entidades do terceiro setor e instituições religiosas, como a Pastoral do Povo da Rua. O Instituto Adesaf acredita, de fato, na possibilidade de reverter essa situação: não por caridade, benemerência ou altruísmo, mas, sim, pelo potencial em cada sujeito, em cada mulher, em cada homem, pois olha para o ser humano em sua integralidade e não para uma substância, seja ela qual for. Acreditamos e atuamos na estratégia de redução de danos, cientificamente comprovada em resultados, cada um no seu tempo, cada um de seu modo, mas todos por seus direitos. Seguimos na defesa e na atuação incondicional em prol dessa população formada por sujeitos de direitos. E condenamos qualquer ação higienista ou de repressão. Estamos nesta luta pautados pelo humanismo, pela Ciência e pela crença inalienável na emancipação humana.