(Vanessa Rodrigues /AT/Arquivo) A crise climática não é uma ameaça abstrata na Baixada Santista. Ela tem endereço — e quase sempre coincide com os territórios mais vulnerabilizados. Enchentes, marés elevadas, calor extremo e incêndios atingem de forma desproporcional quem vive onde o poder público historicamente menos investiu. Falar de adaptação climática aqui é falar de moradia digna e direito à cidade. As mudanças do clima afetam a todos, mas não da mesma maneira. Quando uma cratera se abre após chuva forte no Gonzaga, em Santos, ou no Gonzaguinha, em São Vicente, a resposta é rápida. Nas periferias, o risco é permanente — e a espera por soluções pode durar décadas. Neste ano, duas comunidades da região foram escolhidas para a nova edição do programa Planos Comunitários de Redução de Risco e Adaptação às Mudanças Climáticas (PCRA): México-70 e São Manoel. Ambas têm áreas com palafitas, símbolo de um déficit habitacional histórico nunca enfrentado de forma estrutural. A iniciativa, da Secretaria Nacional de Periferias, propõe enfrentar riscos climáticos com organização comunitária e planejamento participativo. O São Manoel é reconhecido pela própria Prefeitura de Santos, no Plano de Ação Climática (PACS), como uma das dez áreas mais vulneráveis do município. O México-70 foi identificado como prioritário pelo projeto Coopclima, da Fapesp. Há diagnóstico técnico. Falta transformar vulnerabilidade em ação estruturada. Com coordenação técnica da Unesp e atuação de agentes do próprio território, os PCRAs são construídos com quem vive o risco diariamente. Moradores mapeiam pontos críticos, definem prioridades e discutem melhorias concretas. O saber técnico dialoga com o conhecimento popular. Não se trata apenas de reagir a desastres, mas de reduzir danos antes que eles aconteçam. Os planos vão além da agenda ambiental: tratam de justiça climática na prática. Adaptar esses territórios é enfrentar desigualdades urbanas acumuladas e garantir o direito à moradia e à cidade. E essas comunidades já mostram caminhos. A horta Bons Frutos, no São Manoel, e as ações da Associação Flor do México e do Projeto Vittória revelam que, mesmo sob risco constante, há organização e esperança. Se a crise climática tem endereço, a solução também precisa ter. E ela começa por priorizar quem sempre ficou por último — transformando vulnerabilidade em investimento público, participação social e garantia concreta de direitos. *Pedro Torres. Professor da Unesp/IBCLP, lead author do IPCC e pesquisador associado do Centro de Pesquisa em Resiliência em Crises Climáticas e Desastres *Mariana Urrestarazu. Planejadora territorial (UFABC) e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Resiliência em Crises Climáticas e Desastres