Imagem ilustrativa gerada por IA (Freepik) Possuímos a não habilidade manifestada em interpretações equivocadas sobre pessoas, cenários e fatos. Frequentemente, alguém com extrema timidez é tomado por soberbo, e pessoas que se valem do silêncio como antídoto contra agressões verbais são classificadas como covardes (Isabela, minha filha, costuma dizer que tenho o hábito de exagerar na quantidade de exemplos, então é oportuno parar por aqui). Como disse, avaliamos errado. “Prefiro ter paz a ter razão”, diz o profundamente falacioso ditado contemporâneo. Compreendo a boa intenção de quem o propala. Mas há demasiado engano nessa indulgente afirmação. A paz é o fruto primordial da justiça. Faço um breve paralelo com as demandas da alma: quem encontra paz interior em contato com Deus, crê, sobretudo, em Sua justiça. A fé em Deus onipotente, onipresente e onisciente estaria seriamente comprometida se acreditássamos que Sua justiça é falha. Sem a percepção de que, ao final de qualquer atribulação, a justiça se imporá, viveríamos simulacro de paz. E só pode haver justiça efetiva quando se chancela a razão de quem a tem. Não tenho razão? Quando a resolução de algo afronta o mais elementar senso de justiça, a paz é sequestrada. E quando a injustiça é estatal, acabamos tomados pela normalização do absurdo. Alguns leitores podem franzir o nariz em desaprovação, convictos de que a justiça é algo que não se pode definir objetivamente, portanto impossível de ser alcançada. Respeito, mas discordo. Como escreveu o lusitano Afonso Rodrigues Queiró, “não se saber o que uma coisa é, não significa não se poder saber o que ela não é”. Embora seja difícil defini-la com precisão, talvez seja factível se buscar justiça simplesmente ao serem eliminadas as opções que afrontam o senso comum. Outra questão: a justiça pode se concretizar diante de imparcialidade que não se faz presente na própria cúpula do Judiciário? Pode um ministro promovê-la ao julgar ação em que sua esposa atua como defensora do réu? Ou após ter realizado negócios com o acusado? Ou frequentado festas promovidas pelo criminoso? Ou, ainda, voado em avião do processado? O STF tornou-se seara política (dramaticamente, sem voto popular e sem fiscalização externa pelos abusos praticados) e passou a se preocupar com questões “mais nobres”, como ampliar poderes e blindar ministros. Se especialmente o Supremo é incapaz de promover justiça, como alimentar esperança em que haja paz? Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor.