(Reprodução) Todos conhecem o dia 21 de abril como o feriado que marca a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Executado em 1792, após longo processo que o condenou à morte, poucos têm dimensão da complexidade desse histórico episódio. Por muito tempo, sua imagem foi retratada com barba e cabelos compridos, em uma representação semelhante à de Jesus Cristo — uma construção simbólica que buscava associá-lo à figura de um mártir. Na verdade, para o enforcamento, Tiradentes estava com barba e cabelos raspados. Ele foi apontado como um dos líderes da Inconfidência Mineira. Importante destacar que ele não figurava entre os membros mais proeminentes do movimento, formado majoritariamente pela elite de Vila Rica (atual Ouro Preto). Inspirados pelas ideias iluministas europeias, esses homens pretendiam proclamar uma república em Minas Gerais, motivados, sobretudo, pelos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa. Todos conhecem a história. Tiradentes foi enforcado e esquartejado. Partes de seu corpo foram expostas no caminho entre Minas Gerais e Rio de Janeiro como intimidação. Sua cabeça, exibida em praça pública, desapareceu em circunstâncias nunca esclarecidas. Seus bens foram confiscados, sua casa destruída e o terreno salgado. E a história por trás da história? Durante décadas, sua memória permaneceu relativamente apagada. Apenas após a Proclamação da República, em 1889, Tiradentes foi resgatado como herói nacional — em parte por sua condição de militar e pela necessidade de construção de símbolos republicanos. A figura de herói construída na Primeira República visava endossar o golpe militar, aproveitando-se do fato de ser Tiradentes um alferes, militar de baixa patente. Ao construir essa imagem, associava-se a ideia de que os militares eram os heróis do Brasil naquele momento. O quadro de Pedro Américo Tiradentes Esquartejado, pintado em 1893, buscou reforçar essa ideia. Por que apenas Tiradentes foi condenado à morte, enquanto os demais receberam penas brandas? Por qual razão a rainha Dona Maria I o sentenciou de forma tão severa? Ele não era o único conspirador. Teria sido por sua condição social? Se todos tivessem recebido a mesma punição, as elites de outras capitanias aceitariam passivamente ou haveria uma reação em cadeia? A independência poderia ter ocorrido antes? É incrível como, ainda nos dias atuais, essa história se repete, com enredos similares, atores diferentes e desfechos semelhantes. É nesse ponto que o ditado popular ganha força e atualidade: pau que bate em Chico, bate em Francisco? Fica a reflexão. Ton Andrade. Professor de História, Pedagogia e Sociologia, pós-graduado em História e Cultura Afro-Brasileira, Sociologia da Educação e Cultura, e Filosofia.