( Marcello Casal Jr/ Agência Brasil ) O Brasil não é para amadores. É preciso, no mínimo, estômago de rinoceronte e fé de monge tibetano para acreditar que aqui ainda há justiça — ou ao menos algo que se pareça com ela. A última pérola do teatro judicial brasileiro, mais parecida com um pastel mofado de cartório, é a decisão de um juiz — cuja toga deve ter vindo com venda de fábrica — de cancelar uma ação contra um grupo de ladrões que surrupiou dinheiro dos aposentados do INSS. Sim, você leu certo. Dinheiro dos aposentados. Gente que trabalhou a vida inteira para ganhar uma mixaria e agora, na velhice, é assaltada por uma “associação de convênios” que mais parece nome de quadrilha de colarinho branco. O juiz, então, magnânimo como um barão do café do século 19, decidiu que não era o caso de continuar com a ação. Alegações processuais, tecnicalidades, o habitual balé jurídico que sempre dança conforme a música do poder. Cinco desembargadores e dois juízes se disseram “impedidos” de julgar o caso. Impedidos de quê, exatamente? De aplicar a lei? De fazer justiça? De olhar nos olhos de um idoso que teve R\$ 78,00 arrancados do contracheque para pagar por um plano de funeral que nunca pediu? Enquanto isso, o Governo Federal bate cabeça sobre como ressarcir os lesados. Discute-se a possibilidade de usar dinheiro público — ou seja, nosso — para pagar pelos desvios cometidos por uma máfia legalizada. É o equivalente a dar aspirina para quem levou um tiro no peito. E o tiro, aliás, continua saindo da mesma arma: um estado que, na prática, é cúmplice. A comparação inevitável é com o escândalo de Watergate. Lá, nos EUA, dois jornalistas começaram a investigar um arrombamento de quinta categoria e acabaram derrubando um presidente da República. Watergate mostrou que nenhuma figura, nem o presidente, está acima da lei. Já por aqui, aprendemos que a lei é que está abaixo de certas figuras. Essa decisão judicial — se é que se pode chamar assim — não é apenas um erro. É uma ofensa. Um tapa na cara de milhões de brasileiros que vivem com uma pensão mínima, que contam moedas para comprar remédio, e que agora precisam ouvir que a Justiça achou por bem não julgar o roubo do pouco que lhes resta. Se essa é a Justiça, então estamos condenados. E o que se rouba não é apenas dinheiro. Rouba-se a fé pública. A esperança. A ilusão de que ainda vivemos numa república — e não numa colônia de saqueadores togados. * Jornalista, radialista e filósofo