Saudo-te Parque Valongo pura poesia, regalo aos olhos e corações santistas. Bravo feito saúdo teus realizadores! Benditos os que semeiam parques! (Alexsander Ferraz/ AT) A ilha precisa da plenitude ampla de todos seus horizontes, a ilha não se faz só sem que nossa mirada toda a ilumine. Uma cidade diante o oceano mar, abraçada por um cais único, fonte de abraço para toda parte do mundo que acolhe em suas reentrâncias. A muralha das serras moldando o aconchego de flora atlântica e noutra margem outra ilha, espalmando outra margem do estuário, ou braço de mar, berço de generoso calado para todas gentes e mercadorias do estrangeiro. Depois dobrar a baía protegida por dois vastos promontórios, as embarcações gigantes ou delicados barcos esgueiram-se na ponta de vasta praia, dobrando o porto que vai ao longe, ao ancoradouro generoso. É o Valongo agora completando o casamento imorredouro entre a cidade e o porto, numa simbiose perfeita sem sabermos mais o que Santos, o que guindastes, o que ruas e atracadouros, o que avenidas ou armazéns e todo cromatismo dos contêineres. E surge a concretização dum sonho de reencontro: o Parque Valongo possibilitando o olhar rente à linha d´água, o convívio lúdico dos habitantes e turistas com a parte ausente da terra, com esse espaço agora cenário de novos outros sonhos. Quantos poetas cantaram esse Valongo boêmio, santo, misterioso de chegadas e partidas, passagens subterrâneas secretas e sempre novos e eternos retornos. Neruda cantou o Valongo, a norte-americana Elizabeth Bishop cantou lindamente o Valongo, especialmente Ribeiro Couto, nosso bardo, disse assim desse lendário Valongo: “Mercado de peixes, mercado da aurora / Cantigas, apelos, pregões e risadas / À proa dos barcos que chegam de fora / À popa estendidas, as velas molhadas / Foi noite de chuva nos mares do mundo”. Mas que coisa mais linda esse Parque, que vai ao longe da vista fazendo jus à nossa antiga alcunha: Barcelona brasileira, onde cultura, arte, gastronomia resgatam a paisagem moldando Santos, agora sim, completa. Um parque sobre as águas literalmente de mar tudo envolvendo, plataformas, píer, o lazer que nunca cesse em experiências analógicas em tempos de tantos algoritmos. Tudo todo ao mesmo tempo, tendo o centro histórico fervilhando acalentado pelo fluxo das águas, porque todo porto é berço, todo mar é útero e tanto nos prende diante desse infinito contido. O Parque Valongo propõem-nos a terceira margem fonte de reflexão e tranquilidade que nos fortalece. Como não lembrar doutro também poeta santense Narciso de Andrade.... “Com tanto navio para partir / minha saudade não sabe onde embarcar...Ah! receber todos os adeuses / todos os olhares de ida e volta e permanecer ancorado na paisagem imutável”. Curtir o horizonte tão somente já será uma atração, um cargueiro de bandeira exótica, o balé de nuvens cortando a bruma espessa do amanhecer, o voo de guarás e garças forasteiras, o rumor das ondas, por si um espetáculo crepuscular. Um outro “skyline” se descortina, uma outra “praia” feita das pedras imantadas de memória, com visitação constante Santos inaugura novas rotas, outros itinerários. Saudo-te Parque Valongo pura poesia, regalo aos olhos e corações santistas. Bravo feito saúdo teus realizadores! Benditos os que semeiam parques!