(Imagem ilustrativa/Pexels) A primeira escola foi o quintal. Os latidos do Bolero, as palavras que repeti, correndo pelo chão de cimento, invadindo o gramado, deixando marcas de pés e patas na roupa estendida. Tia Celeste trazia a bacia enorme com água e sabão. Mergulhávamos as peças, cantarolando e esfregando até tirar as manchas. Essa foi a primeira lição de respeito e responsabilidade. As vogais surgiram no encanto das descobertas no espaço natural e lúdico, entre as expressões de admiração, Oh! Ah! A tia com sua mão na minha mão, riscava ‘o’, ‘a’ na terra do canteiro. O vizinho agredia a companheira e o choro da polaca ultrapassava o muro entre os sobrados. A tia enxugava as lágrimas do meu rosto, repetindo ‘mau’, frisando a vogal ‘u’. Menina ingênua, eu repetia o som fazendo um biquinho com os lábios. Inesquecível a lição de cidadania e respeito à mulher, exemplo que se configurou na postura de meu pai junto às filhas. E, me refiro aos anos 40-50 do século 20. Mamãe, a segunda mestra, acompanhou nossas tarefas escolares, transitando entre a cozinha, a sala e a máquina de costura. Ao me aposentar, percebi quem era Isabel Alonso Garcia, nos versos de Adélia Prado: Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável! A memória dos mestres é um modelo a seguir. Desde o primário na Escola Portuguesa, a doçura de Dona Luiza Simões não a impedia de ser firme e justa. Acompanhou-nos até a quarta série, usando o teatro como instrumento de educação e cultura. Apesar da simplicidade e pequena renda de nossa família, mamãe sempre providenciava um presente no Dia do Professor e no final de cada ano letivo. O exemplo de amor e interação entre família, professor e comunidade me leva ao magistério no Colégio Canadá. Nos anos 60, começo a lecionar no Independência. Faço estágio em escolas municipais da Baixada até prestar concurso e ser nomeada professora, lecionando na EMPG Cidade de Santos e Fernando Costa. Amplio os estudos na UniSantos, cursando Ciências Físicas e Biológicas, com docência da 5ª a 8ª séries e dos anos iniciais do ensino secundário. Fiz Orientação Educacional, Coordenação Pedagógica, Supervisão Escolar para ascender a essas áreas. Confesso, porém, a falta que senti da sala de aula, do convívio direto com os alunos. Amor reforçado pelo exemplo das irmãs mais velhas, que percorreram longas distâncias viajando de trem pela Santos-Juquiá, partindo da Sorocabana até Itariri. A pé, fizesse chuva ou sol, cada uma na sua época, pisou o chão de terra até a escolinha de madeira, com apenas uma sala dividida em quatro fileiras de carteiras, correspondendo às séries iniciais do primário. O afeto da comunidade refletia-se nos presentes inesquecíveis ao final do ano: engradados de frangos, galinhas, galos, perus e pasmem, até uma porquinha rosada! Se os astronautas denominam as estrelas, as duas irmãs, Magaly Alonso e Maria Luiza Alonso Silva estão eternizadas em nomes de escolas municipais e estaduais. Na memória afetiva revejo a sala de aula, os colegas e à mesa, o professor regendo a orquestra, incansavelmente, em busca da harmonia entre ensino, educação e comunidade. Que saudade desse tempo. Parabéns, professor! Ontem, hoje e sempre, nossa eterna gratidão! *Escritora e membro das Academias Santista de Letras e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios