[[legacy_image_309985]] Na Semana da Criança, os bondes de Santos eram disponibilizados gratuitamente aos alunos de escolas municipais e estaduais, para visitas ao Orquidário, ao Aquário e ao Corpo de Bombeiros, que ficava no Castelinho, na Praça Tenente Mauro Batista de Miranda. Era uma festa que muitos devem ter guardado na memória! Alguns acidentes e a pressão da indústria automobilística levaram à extinção do serviço de bondes elétricos, em 1971. Na época, o rodoviarismo tinha a cara do desenvolvimento! E esses interesses predominaram. Perdão aos animais pela analogia, mas parece que os burros deixaram de puxar os bondes, para os pegarem andando e sentarem na janelinha, tomando decisões equivocadas. De certa forma, também devem ter sido influenciados por outra expressão, talvez a mais equivocada de todas: “comprar bonde”, que significava fazer um mau negócio ou ter sido enganado. Restaram apenas os abrigos nos canteiros centrais de avenidas, como os da esquina da Av. Ana Costa com a Av. Francisco Glicério, e o da Av. Conselheiro Nébias com a Av. Vicente de Carvalho. Houve algumas tentativas de retomar esse tipo de transporte, primeiro na orla, nos anos de 1980, até se consolidar na Linha Turística que circula no Centro Histórico e na criação do Museu Vivo Internacional de Bondes da América Latina, com veículos de várias procedências, com destaque para o italiano e o japonês, que mostram como poderíamos ter evoluído dos exemplares de origem escocesa. Precisamos chegar ao século 21 para que voltássemos a ter esse serviço, com o VLT. É difícil implantar do zero, depois que praticamente todos os trilhos foram arrancados ou cobertos com concreto asfáltico. Alguns dizem que é uma mudança cultural, quando deveria ser encarada como um resgate tardio de uma cultura que jamais deveria ter sido esquecida. Afinal, os bondes elétricos continuam a circular em larga escala em cidades do Hemisfério Norte, sobretudo na Europa, transitando sem sobressaltos em meio a carros, caminhões e pedestres. Às vezes, eles passam a centímetros de parklets de restaurantes e bares, sem maiores consequências que não o deslocamento de ar. É assim em Roma, Genebra e Amsterdã. E a expansão desse modo de transporte ocorre em várias cidades, seguindo a premissa de proporcionar transporte ambientalmente sustentado com qualidade, conforto e regularidade. Os bondes, agora sob forma de VLT, assim como o transporte ferroviário, sofreram do mesmo “mal”, no Brasil: uma percepção estratégica errônea. A Europa, destruída pela Segunda Guerra Mundial, apressou-se em recuperar e ampliar suas ferrovias e serviços de bondes urbanos, com ênfase em veículos elétricos. Aqui, houve um abandono, seguido de um hiato histórico, que hoje torna tudo mais difícil de recuperar ou construir, por conta de licenciamentos ambientais, burocracia estatal, lucros cessantes e ingerências externas, com interesses nem sempre claros. Além disso, como em toda a obra urbana, por mais que sejam elaborados planos de ataque que menos criem estorvo, vale a ditado, segundo o qual “não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos”. Assim, é preciso reformular conceitos e recuperar a cultura do transporte menos ambientalmente impactante, fomentando-o. Também é fundamental agilizar a execução dessas obras, para evitar que o prazo saia fora dos trilhos, e para que não continuemos a “perder o bonde da História”.