(FreePik) Como em tantos eventos que se apresentam diante de nós durante a vida, essa não foi uma escolha pessoal. Por circunstâncias, lá estava eu visitando as instalações do campo de concentração de Auschwitz, especificamente Auschwitz II, destinado a dar efetividade à Solução Final, o extermínio em massa de judeus, eslavos, ciganos e de qualquer um que compusesse a macabra lista criada pelo nazismo com o rol de seres humanos considerados inferiores. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Havia sol, mas não havia brilho. Naquele ponto específico da Polônia, o silêncio é o que somente encontramos em igrejas, fora dos horários de missa. O mesmo não se pode dizer da paz. Por lá, não se encontra paz. Poderíamos encontrá-la onde a injustiça se fez presente? Somos inundados por inexplicável sensação de angústia e sentimento de vergonha alheia, profundo constrangimento ao relembrar o sofrimento que um grupo de indivíduos foi capaz de impor a milhões de outros indivíduos de nossa subespécie, que se orgulha de ser a única detentora de córtex pré-frontal. Extraí a desconfortável oportunidade de conhecer um pouco mais desse deplorável episódio de nossa História recente. As instalações preservadas têm odor característico, odor da genuína bestialidade. Uma das placas informa que, num dos galpões – construído inicialmente para abrigar 51 cavalos alemães – logo se encontrariam entulhados 400 prisioneiros, cujo “crime hediondo” praticado se resumia ao fato de terem nascido eslavos poloneses (metade dos milhões de poloneses ceifados naquela fábrica de mortes não era judia). Entre outros motivos, a localização estratégica privilegiada da Polônia na Europa Central sempre despertou interesse por parte de diversos países. A Suécia invadira a Polônia. A Ucrânia disputara território fronteiriço com os poloneses. E, por mais de um século, dividida entre o Império Russo, o Reino da Prússia e o Império Austro-Húngaro, a Polônia deixou de existir como país. Mas o nazismo buscava ir além da conquista do território da Polônia: empenhava-se no extermínio dos povos eslavos (sem se preocupar com divisões didáticas entre eslavos do sul, eslavos orientais e eslavos ocidentais – como os poloneses). Ações atrozes são inicialmente fecundadas e desenvolvidas no campo das ideias. Para agir no sentido de exterminar outras pessoas, primeiro é preciso acreditar que são absolutamente inferiores e desprezíveis. É necessário, ainda, classificá-las em grupos identitários. Paradoxalmente, aqueles que possuem o (maldito) hábito de classificar pessoas são “inclassificáveis”. A História mostra que é dessa maneira que o pior em nós se manifesta: inicialmente, apenas no campo das ideias. Se algum leitor adepto da programação neurolinguística chegou até aqui, deve ter concluído que seria adequado essa crônica ter como título “Para lembrarmos”, em razão de nosso cérebro possuir dificuldade em processar comandos negativos. Nesse tema, discordo. Seria torturante pedir às pessoas que, constantemente, lembrassem das atrocidades do nazismo, aliás, atrocidades da intolerância. Não devemos lembrar dessa mancha da História, porém não podemos esquecê-la jamais. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor