(Matheus Tagé/AT) Dizem que para escrever, basta abrir as janelas, ou mesmo andar pelas ruas, com olhos de enxergar o que se passa ao largo. Claro está que nem sempre só vemos flores e belezas, como gostaríamos de relatar. E agora vou deixar o romantismo e a poesia de fora e fazer uma abordagem realista. Todos os dias, logo cedo, na ida para a academia de ginástica, deparo-me com um morador de rua, próximo do meu prédio. Isso já faz mais de um ano. Às vezes, quando está chovendo ele deve estar em outro local, com abrigo. Não estou contando grande novidade, já que a cidade está cheia de outras pessoas na mesma condição e passamos sem ao menos perceber. E não é um quadro apenas de nossa cidade de Santos, pois esse desalento observamos em outros municípios, aqui no Brasil e no exterior. A cidade de São Paulo, a mais rica do país, causa-nos um incômodo e desconforto pelo cenário caótico. Problemas sociais graves de várias origens, por certo, desde abandono, alcoolismo e outras drogas, desemprego, imigrações, e tantos mais motivos que levam o ser humano a conviver com as dificuldades das intempéries, da sujeira, da falta de higiene, da fome. O Brasil tem hoje 227 mil pessoas em situação de rua, um aumento de 935% em 10 anos. Os números frios não mostram as famílias, as crianças, mulheres sozinhas, idosos que não têm um teto, nem sequer um lugar onde guardar seus poucos pertences. Voltando ao morador de rua do meu caminho matinal, o que me chama a atenção é que ele sempre está com roupas limpas, forte, cabelos cortados, e como é comum em todos eles, carrega um carrinho de muitos apetrechos, parece que ali tem de tudo que possa precisar. Mas fica a indagação - onde toma banho, qual o local de fazer suas necessidades fisiológicas, quais são as estratégias que ele adota no seu dia a dia para se alimentar, para não adoecer e sobreviver? Uma coisa parece nítida, não é usuário de droga, nem de álcool. Será que haveria uma forma de uma guinada na vida dele, se houvesse possibilidade? Ou já assumiu que essa é sua sina e que o amanhã talvez não exista, apenas um dia atrás do outro, sem esperanças? A verdade é que todos os dias aquela imagem me incomoda e passo carregando uma série de perguntas, e até uma espécie de culpa de nada poder fazer para amenizar casos como esse, e de tantos que desfilam pelas nossas calçadas. Sem sermos somente sonhadores e poetas, a realidade cruza aos nossos pés e tentamos nos elevar em preces, pedindo por soluções, que não sabemos quais. Nem as autoridades, assistentes sociais, médicos, psicólogos teriam respostas convincentes e imediatas. Mas que alguma coisa precisa ser feita, não resta dúvida.