Um dos temas que mais desafia e intriga aqueles que estudam eleições no Brasil diz respeito à abstenção nos pleitos. De fato, a quantidade de pessoas que não comparecem às urnas vem aumentando na última década. Em 2016 a abstenção no Brasil foi de 17,58%, enquanto em 2024 atingiu 21,68%, com o pico de 23,15% em 2020, embora esse número possa ser explicado pela pandemia da covid-19. Em Santos, os números são ainda maiores: a abstenção passou de 23,66% para 29,26% no mesmo período, com o recorde de 33,01% em 2020, mas causado principalmente pela pandemia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A grande pergunta é: qual a razão disso? Há, na realidade, três causas principais. A primeira dela remete àqueles que não são obrigados a votar (analfabetos, menores de 18 anos e, principalmente, idosos acima de 70 anos). Ora, todos sabem que a população vem envelhecendo no país. Santos é a cidade com maior número de idosos acima de 65 anos no Brasil (18,73%). Na faixa acima de 70 anos, a abstenção chegou no município, em 2024, a 42% do eleitorado. Como eles representam 17,9% do total, cerca de 8% do não comparecimento se deve a este segmento. Em segundo lugar, há um fator que não pode ser mensurado, mas existe e é importante em certas cidades. Trata-se da mobilidade da população, ou seja, aqueles que mudam para outros municípios e não transferem o respectivo título. Sabe-se que tem sido razoável o fluxo de moradores de Santos que têm migrado para outros locais, especialmente na própria região, em busca de melhores condições de vida e economia nos seus gastos mensais. A terceira causa é o desinteresse pela política e pelas eleições, que tem crescido acentuadamente nos últimos anos. Some-se a isso o fato que a abstenção gera uma multa de apenas R\$ 3,51, e é muito fácil justificar a ausência. A análise dos dados do TSE revela ainda um fato muito preocupante: as faixas etárias nas quais a abstenção é maior são as dos jovens, muito maior do que a média. Entre 21 e 34 anos estão as maiores ausências: de 23,01% a 26,52% no Brasil, e de 32,04% a 34,67% em Santos. Em contrapartida, o contingente com menor abstenção é de eleitores mais velhos: de 12,35% a 12,73% entre 55 e 64 anos no Brasil, e de 15,23% a 15,89% em Santos. Não cabe aqui discutir se o voto deveria ser facultativo. Isso não muda as conclusões. O fato objetivo é que o não comparecimento às urnas dos jovens é o dobro dos mais velhos, demonstrando o quanto a política vem perdendo espaço no Brasil e indicando que este cenário pode se degradar ainda mais nos próximos anos. O desafio é, enfim, resgatar o sentido e a importância da política, dar sentido a ela, e assim empolgar os jovens. Sem participação e interesse desaparece a própria ideia de democracia, que é risco imenso, abrindo portas para as ditaduras e as autocracias mais violentas.