(Imagem gerada por IA) Numa cidade acostumada ao movimento intenso do porto, ao ruído dos ônibus e à correria cotidiana, existe um som que quase ninguém percebe: o ranger suave de uma bicicleta sendo pedalada nas primeiras horas do domingo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ele sai de casa ainda antes do amanhecer. Parte das proximidades do Canal 6, alcança a ciclovia da Avenida Ana Costa e segue em direção ao Morro do Monte Serrat. Antes que o sol domine o céu de Santos, carrega consigo algo mais pesado que qualquer esforço físico: uma promessa. Não é um passeio. É a sobrevivência da alma. Há dois anos, a vida lhe apresentou dores que pareciam maiores que sua própria capacidade de suportar. O trabalho deixou de trazer resultados. As portas começaram a se fechar justamente quando as necessidades aumentavam. Então veio a notícia mais difícil para um pai: sua filha precisaria enfrentar uma delicada cirurgia, cercada pelo risco e pela incerteza. Enquanto buscava forças para permanecer firme, carregava também outra angústia dentro da família: um irmão mergulhado no sofrimento das drogas. E ainda permanecia viva a ausência do pai falecido, cuja presença sobrevivia nos conselhos guardados na memória. Foi então que a fé deixou de ser apenas oração e se transformou em caminho. Todos os domingos, ele repete o mesmo ritual. Pedala até o início da subida do morro, prende a bicicleta com um cadeado simples e começa a caminhada. O arrastar cansado do tênis sobre a pedra, a respiração ofegante e o suor silencioso revelam alguém que não sobe apenas um morro, mas avança mais uma etapa de sua promessa. Fontes oficiais afirmam que o acesso ao santuário possui 402 degraus. Outros garantem ser 416. Mas, para quem sobe carregando sofrimento, esperança e fé, a contagem ganha outro significado. Depois de dois anos de peregrinação, ele tem certeza absoluta de que são 435 degraus. Cada um deles possui um nome invisível: o degrau da saudade, o do medo, o da lágrima escondida e o da esperança. No alto do morro, a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat surge silenciosa, como refúgio para dores e agradecimentos. A rotina das subidas aproximou aquele homem de pessoas humildes e anônimas. Gente que também sobe carregando promessas, pedidos silenciosos e agradecimentos discretos. Pessoas simples, mas portadoras de uma riqueza rara: a fé verdadeira. Talvez a grande transformação nunca estivesse apenas no milagre esperado, mas no caminho percorrido até ele. Porque existem dores que não desaparecem, batalhas que continuam difíceis e perdas que jamais se curam por completo. Mas existem lugares, gestos e crenças que ajudam o ser humano a continuar. No fim, talvez pouco importe se o morro possui 402, 416 ou 435 degraus. Para quem sobe movido pela esperança, cada degrau representa a tentativa diária de não desistir da vida. Adalberto Gonçalves Correia. Economista, empresário, membro do Lions Club de Santos, da Loja Maçônica Acácia de Santos e da Associação dos Amigos da Polícia Militar.