<p data-path-to-node="2" dir="ltr">Chamam-nos de boomers: os nascidos no pós-guerra até meados dos anos 1960, geração à qual pertenço. Um rótulo que, vindo de um jovem, soa quase como xingamento. Pois bem: eu aceito o nome. E devolvo a pergunta. Sou de uma geração que aprendeu a viver nas ruas antes de aprender a viver nas telas. E isso, caro leitor, faz toda a diferença.</p> <p data-path-to-node="3" dir="ltr">Nossa geração foi moldada pelo Zeitgeist que oscilou entre o otimismo do pós-guerra e profundas tensões políticas, culturais e comportamentais. Para quem viveu o período, a memória não é apenas um arquivo de fatos; é o que dá sentido à vida. Fomos fundamentais na construção do mundo que conhecemos hoje.</p> <p data-path-to-node="4" dir="ltr">No campo dos direitos civis, fomos agentes dos grandes movimentos de contestação. Participamos das lutas contra o racismo, pela igualdade de gênero e pelos direitos das minorias. O movimento hippie e o surgimento do rock’n’roll foram formas de romper com o conservadorismo, defendendo a paz, a liberdade individual e a autonomia das mulheres.</p> <p data-path-to-node="5" dir="ltr">Fomos protagonistas de uma revolução comportamental: o feminismo, a liberdade sexual, o divórcio, a pílula anticoncepcional e a contracultura que mudaram costumes que pareciam imutáveis. Viva Leila Diniz, que transformou o próprio corpo em manifesto. Escandalizou o país ao afirmar que as mulheres poderiam ser livres.</p> <p data-path-to-node="6" dir="ltr">De Elvis aos Beatles, a música se tornou o veículo para o debate político, o amor livre, o pacifismo e a crítica social. No Brasil, vivemos o auge da Bossa Nova, a explosão da MPB e a extravagância do tropicalismo, que misturou a tradição brasileira com a vanguarda do rock mundial, criando a estética que definiu a nossa identidade cultural por décadas.</p> <p data-path-to-node="7" dir="ltr">Assistimos à transformação dos meios de comunicação: do jornal impresso e do rádio à televisão; da chegada da internet ao streaming e aos celulares. As ruas do país foram ocupadas por um movimento suprapartidário que, com apoio de artistas — viva Fafá de Belém —, sindicalistas e da sociedade civil, gerou uma pressão política sem precedentes. Os boomers participaram ativamente da redemocratização, com as Diretas Já e a Constituição Cidadã de 1988.</p> <p data-path-to-node="8" dir="ltr">Hoje, o espaço público de debate foi substituído por bolhas algorítmicas, cancelamentos e polarizações que transformaram o diálogo — algo que tanto prezávamos — em um exercício quase impossível nas redes sociais. Brincávamos na rua até o anoitecer, sem o olhar constante do adulto ou o monitoramento de telas. Hoje o mundo é de vigilância permanente. Os filhos e netos cresceram e crescem em um ambiente hiper-supervisionado e digitalizado, um choque cultural que talvez ainda estejamos aprendendo a compreender.</p> <p data-path-to-node="9" dir="ltr">Talvez os jovens de hoje conheçam outras formas de medo. Mas nós conhecemos uma forma brutal de perda: a de ver a liberdade ser arrancada à força. Por isso, quando a vemos se dissolver em vigilância, bolhas e intolerância, a pergunta volta: onde pode parar a liberdade que um dia defendemos?</p> <p data-path-to-node="10,0,0" dir="ltr">*Marcio Aurelio Soares. Médico e escritor</p>