(Mario Oliveira/Ministério do Turismo) Na década de 1970, um anúncio de carro, veiculado na TV, retratava um pequeno automóvel percorrendo um trecho da BR-230, uma cicatriz aberta no meio da floresta pela Rodovia Transamazônica. Em outra cena, enormes tratores de esteira derrubavam árvores gigantescas para a abertura da dita “estrada da integração nacional”. O slogan da campanha era: “Desbravando o inferno verde”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Passados 50 anos, infelizmente ainda há muito reflexo deste ideal de ocupação da Amazônia, baseado em conhecimentos exóticos, de total desconhecimento e desrespeito às realidades amazônicas, principalmente nos meios políticos e empresariais. Isso porque é mais fácil destruir que conhecer, é mais fácil matar o desconhecido do que aceitar novas perspectivas e novas formas de convívio com o ambiente natural. Os jovens que não vivem na Amazônia e, também muitos dos que estão nas grandes e médias cidades amazônicas, pouco ou nenhum conhecimento têm sobre este extenso e rico território. Os currículos escolares pouco retratam a geografia e a história de ocupação da Amazônia, o que deixa um vácuo na formação de nossos jovens, que conhecem mais sobre os parques temáticos dos Estados Unidos e da Europa do que sobre as maravilhas observadas, ao navegar os rios e igarapés amazônicos. E isso ocorreu mesmo com muitos devendo carregar a Amazônia em seu imaginário, pois, invariavelmente, o noticiário relata acontecimentos infelizes, como garimpo em terras indígenas, tráfico de drogas e de animais silvestres, desmatamentos por atividades irregulares, perseguição e morte de lideranças comunitárias, de servidores públicos e de ambientalistas. Por outro lado, o contato com a ambiente amazônico e o convívio com comunidades ribeirinhas e com os saberes tradicionais provocam um choque cultural em quem tem esta oportunidade. Na Amazônia, o ritmo é outro e quem tem o privilégio de vivenciar tais experiências se sente revivido e muda o modo de pensar e de agir. É preciso perceber as belezas do ambiente amazônico, além de seus problemas e sua realidade da degradação ambiental, para saber discernir sobre que futuro queremos para a Amazônia e, por que não dizer, para o nosso planeta. Paulo Spínola é biólogo, analista ambiental e autor do livro O Mistério do Povo Mamoé.