(Pixabay) O Porto de Santos faz parte da memória dos 150 anos da imigração italiana, completados em 2024. Ali desembarcaram quase todos os 1,3 milhão de italianos que, entre 1880 e 1924, chegaram ao Brasil em busca de vida melhor. A maioria era procedente de Nápoles, no sul da Itália, que, nas décadas finais do século 19 e nas primeiras do século 20 perdeu 25% de sua população para a emigração. Do porto santista, eram encaminhados para a cidade de São Paulo e o Interior paulista, onde reconstruíram a vida e constituíram histórias que influenciaram decisivamente o Brasil na economia, gastronomia, literatura, língua, artes plásticas, indústria, futebol, sindicalismo e outras áreas. A saga dessa multidão é rememorada no livro “Breve história da imigração meridional italiana no Estado de São Paulo”, lançado pelo jurista, escritor e historiador Durval de Noronha Goyos Jr. A obra analisa as condições socioeconômicas, políticas e demográficas da Itália antes da emigração e avalia a situação do Brasil à época em que os italianos vieram em massa, deixando para trás suas famílias, a pobreza e até a própria história. O autor, que integra a Academia de Letras de Portugal e presidiu a União Brasileira de Escritores, explica que havia interesse recíproco de ambos os governos, embora não explicitado da parte italiana, nessa emigração-imigração. A Itália recém-unificada, no movimento do risorgimento, vivia um período de miséria, com boa parte de sua população passando fome. Ao deixar o país, essa numerosa parcela de emigrantes não só aliviava o peso demográfico nas contas públicas, como contribuía para recuperação da economia local por meio das remessas de dinheiro para os remanescentes. Já o Brasil, às voltas com a abolição da escravatura, necessitava de mão de obra barata para substituir os escravos nas fazendas de café e também precisava povoar áreas férteis de baixa densidade demográfica. O escritor recorda que o “interesse do governo imperial do Brasil era claro em atrair italianos, tanto que nomeou na Itália agentes incumbidos de recrutamento e organização logística dos contingentes de emigrantes”. Não raro, esses agentes iludiam os interessados, que “viviam em desesperança em seu país” e, ao chegarem aqui, se deparavam com a vida precária que já lhes era familiar. Noronha - que em 2013 publicou o livro “A campanha da Força Expedicionária Brasileira pela libertação da Itália” - realça que a efeméride dos 150 anos da imigração “evoca a epopeia de parcela significativa do povo de uma nação subjugada, humilhada e em ruínas, que partiu para construir uma vida nova, com extraordinárias contribuições ao país que a acolheu”. Para ele, “os miseráveis de um dado momento transformaram-se em gigantes noutro continente e nele desenvolveram todo seu potencial humano”. *Jornalista