A população paga pelo abastecimento de água e espera que o serviço funcione mesmo diante das variações climáticas conhecidas. Por isso, uma pergunta precisa ser feita à Sabesp: como uma empresa que administra um recurso diretamente dependente das chuvas ainda enfrenta dificuldades para garantir o fornecimento justamente quando elas chegam em grande volume? Na Baixada Santista, episódios de falta de água foram atribuídos pela companhia aos temporais, que carregam sedimentos, folhas e matéria orgânica para os pontos de captação. O aumento da turbidez dificulta o tratamento e pode exigir a redução ou a interrupção temporária da produção. A explicação é tecnicamente plausível. O que ela não esclarece é por que o sistema não conseguiu absorver o impacto sem comprometer o abastecimento da população. Chuvas intensas não são uma novidade na região. Assim como a estiagem e o aumento do consumo no verão, fazem parte de um cenário que deveria orientar o planejamento operacional. Se a água chega aos mananciais com excesso de sedimentos, quais estruturas permitem retê-la, controlar sua qualidade e tratar o volume necessário? A capacidade das estações e dos reservatórios foi dimensionada para essas condições? Que medidas preventivas foram adotadas? A discussão ganha importância diante dos investimentos anunciados pela companhia. O plano de R\$ 47,4 bilhões para 2024 a 2028 prevê recursos para ampliar e modernizar os serviços de saneamento. Para a Baixada Santista, foram anunciados R\$ 7,5 bilhões em obras até 2029. São cifras expressivas, mas anúncio não é entrega, e investimento não pode ser medido apenas pelo dinheiro aplicado. É preciso conhecer as obras concluídas, sua entrada em operação e os resultados concretos para quem depende do serviço. A população tem o direito de saber quanto desses recursos foi destinado à segurança hídrica, quais problemas cada obra pretende resolver e por que persistem episódios de desabastecimento. Também cabe perguntar à agência reguladora como acompanha essas ocorrências e cobra providências. Não se trata de exigir que a Sabesp controle o clima. Trata-se de cobrar planejamento para enfrentar situações previsíveis. Se a estiagem ameaça os reservatórios e a chuva intensa compromete o tratamento, a empresa precisa demonstrar como se prepara para os dois cenários. Água é um serviço essencial. A justificativa técnica explica o problema; não encerra a discussão sobre a responsabilidade de preveni-lo, reduzir seus impactos e prestar contas à população. *Marina Teles. *Jornalista membro da Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais (RBJA)