(FreePik) Uma onda se agiganta. Mergulho fundo sob o brilho azul-neon das algas. O que importa na pintura ‘A grande onda de Kanagawa’ é a beleza. Impalpável, muitos dirão. Não me prendo ao mundo utilitário. Para onde vou? Não sei. Quero apenas viver. Afinal o que é a vida senão o despertar a cada dia? Para mim a imortalidade está noutro plano, que não é o terreno. Quem sou eu para falar da eternidade se nem sei quem sou? Desconheço-me a cada pensamento – Queres chocolate, pequena chorosa à porta da tabacaria? Come tudo, lambe os papelitos dourados! Alguém te olha do outro lado da rua... Não quero chocolate. Estou diabética. Para mim, restam a velhice insossa e o cheiro do esgoto a céu aberto correndo pelos rios, que antes adoçavam o mar e agora, o contaminam. Cardumes inteiros boiando. Contaminação é um círculo vicioso, o homem seu principal agente. Pai, meu pai, velho marujo, onde estás? Nem tua sombra acena no barco. O motor ligado e no vaivém do timão, cantavas a viagem inteira. Cadê os cachos de banana abarrotando o convés... Os últimos peixes saíram de tua boca, quando agonizaste, pai... Meu pai pé de valsa, que falta tenho de ti! Teu filho, primeiro varão, tão desejado, foi ao teu encontro. Órfãs de pais e irmãos, eu e a caçula, sobrevivemos solitárias. Que a mim seja dado saborear ao telefone, nosso encontro à distância. No estuário, sobre as pedras limosas, casas precárias construídas na escuridão pelos párias da sociedade. Na outra margem, em apartamentos de luxo, os que têm nome e sobrenome, tratados por senhores e doutores, mesmo sem diplomas. O dinheiro compra tudo. Nada devia ter um nome por medo que esse nome o transforme. Virgínia Wolf, quanto te admiro. O que importa é o de dentro, a verdadeira relação. O céu azul e as nuvens trazem de novo tua voz, Quero eliminar todo o desperdício, todas as coisas mortas, o supérfluo: dar o momento inteiro, com tudo o que faz parte dele. Digamos que o momento é um misto de pensamento, de sensação, a voz do mar... Desço a encosta e sigo o caminho de pedras. Quaresmeiras emprestam seu roxo aos panos sobre as imagens nas igrejas, neste outono, lembrando a morte, mas eu me apego à Páscoa, à Ressurreição. A vida clama por alegria. São as palavras que ardem. As ondas quebram-se tal como bate o coração.. Palavras atropelam-se. Não importa quais sejam. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Akira Kurosawa interpõe-se com o velho e o tilintar da sineta em uma das mãos e na outra, o galho de flores do campo. Segue o féretro no regozijo que se expande entre o vermelho das vestes e a música da banda. Se o nascer é venturoso, o renascer também é. Virgínia Wolf insiste, A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata. Sou outra mulher, buscando a esperança, mesmo despertando num mundo incerto. Quebrando a austeridade da Quaresma, na Páscoa, lembro que o roxo será substituído por outra cor, uma reminiscência do rosa encontrado no céu no amanhecer de um novo dia. Desperto feliz. *Regina Alonso. Escritora, membro das Academias: Santista de Letras ‘Casa de Martins Fontes’ e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios