A Ásia oferece algo a mais do que consta em folhetos de viagem. Vai além de experiências que tocam em nossos sentidos básicos, como aventuras especiais, o exotismo das paisagens, o perfume das especiarias e o conforto do luxo. É algo que toca os afetos. Ainda que a língua, a religião e a cultura sejam diferentes das nossas, o respeito ao intruso curioso é excepcional. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em minha viagem pelo continente do arroz, encontrei mais do que imaginava. Não foi o sol nascendo, nem as montanhas refletidas nos mares azuis. Não foram os edifícios que desafiam o céu, os carros inteligentes, os palácios centenários ou os budas monumentais. Foi uma sensação de retorno ao útero: protegido, aquecido e cuidado. As pessoas se esforçavam para me compreender, como quem tenta decifrar um enigma com delicadeza. Pareciam velhos amigos. Alguns se assustavam com a barreira da língua, mas não perdiam o sorriso; outros chamavam reforços para me ajudar. Em Kaohsiung, cidade portuária no Taiwan com quase três milhões de almas, fui recebido na porta de um banco como se fosse rei. O recepcionista, solícito, guiou-me até o setor de câmbio, onde aguardei sentado, envolto por um silêncio tão suave que até a copiadora parecia falar baixo. Ao final, com o dinheiro nas mãos, ouvi um “xièxiè” que soou como bênção. Carregando malas, a caminho do aeroporto de Taipei, desci do trem-bala. Um casal local, também com o mesmo objetivo, percebeu minha hesitação e, com naturalidade, nos acompanhou até a estação correta. Entre gestos e improvisos linguísticos, assistimos no celular ao show do pequeno saxofonista da família, o filho de 12 anos que os acompanhava. Ficamos íntimos sem perceber. O tempo passou rápido. Em cada escala, em cada dúvida, surgia um anjo de olhos puxados. Até a garçonete correu para me atender. Em Seul, numa lanchonete, perfumada de pães e doces franceses, fiz um pedido errado: o chá veio quente, não gelado. Uma senhora coreana, que não trabalhava ali, notou minha trapalhada. Minutos depois, pousou em minha mesa um copo cheio de gelo, como quem oferece um gesto simples capaz de iluminar o dia. No trânsito, o respeito é quase uma coreografia. Mesmo em Hanói, onde milhões de motocas disputam espaços com poucos semáforos, elas se cruzam sem se tocar, como malabaristas disciplinados. O som dos motores vence o das buzinas. Não vi acidentes, nem discussões. Gentileza e cortesia foram o que mais me marcou nesses trinta dias de mergulho asiático. A simplicidade convive com o luxo sem conflito. Foi um panorama diferente que nos obriga a refletir sobre a evolução que a educação é capaz de produzir. É um sentimento que toca a alma, aquece o coração e deixa saudade.