[[legacy_image_292410]] Por um triz, Praia Grande não protagonizou um fato que seria dos mais explosivos da sua história: transformar-se em uma bombástica notícia internacional. No caso, a prisão de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes. Tudo começou na década de 1930, em Moscou, então capital mundial do comunismo. Prestes, morador da cidade, era venerado como um herói latino-americano. Capitão do Exército brasileiro, ele deixou os quartéis para liderar uma coluna rebelde que ganhou seu nome. Formada por 620 componentes, ela percorreu 25 mil quilômetros em 12 estados brasileiros, durante dois anos. Olga Benario tornou-se célebre, aos olhos de Moscou, ao encostar o cano de um revólver na cabeça de um guarda que apresentava um prisioneiro a julgamento, em Berlim, e berrar: “Solte o preso! Quem se mexer leva chumbo!” A autora da ousadia era uma jovem alemã linda, de pele clara, cabelos escuros e maravilhosos olhos azuis. O preso, seu namorado, era um jovem professor. Logo que puderam eles fugiram para Moscou. Na segunda metade da década de 1930, Prestes convenceu a cúpula soviética que seu país estava preparado para a revolução. Olga foi escolhida para ser sua guarda-costa na viagem de volta ao Brasil. A proximidade aumentou a admiração mútua, favoreceu a amizade e, logo depois, a paixão e o amor, que terminaram em casamento. A rota pelo Pacífico previa que a partir de Porto Alegre o hidroavião que levava Prestes e Olga faria uma escala em Praia Grande. À última hora, essa escala foi cancelada. O pouso passou a ser em uma praia de Florianópolis. Olga confidenciou a Prestes: “Essa escala será providencial. Se algum serviço de inteligência tivesse conhecimento da nossa rota original, os policiais estariam à espera na Praia Grande”. Alterada a rota, a simpática cidade perdia a chance de ganhar as manchetes mundiais. No livro Olga, Fernando Morais conta que o casal conseguiu chegar ao Rio de Janeiro, seu destino final. A revolução fracassou. Prestes e Olga se refugiaram em uma casa de camaradas, no subúrbio carioca do Meier. A polícia invadiu a residência. Prestes tentou fugir por uma janela, de pijama e chinelos. Os policiais iriam matá-lo. Olga se lançou como um escudo na frente de seu companheiro e bradou: “Não atirem! Ele está desarmado!” Os dois foram presos. Começa aí um dos episódios mais vergonhosos da história do Brasil. A ditadura de Vargas entrega a prisioneira grávida ao regime de Hitler. Uma verdadeira condenação à morte. Além de comunista ela era judia, algo insuportável para os nazistas. A bebê Anita Leocádia ficou sob a guarda da avó paterna. Olga foi assassinada no campo de concentração de Bernburg. Primeiro, asfixiada com gás venenoso. Em seguida, atirada a um forno crematório. Na véspera, escreveu uma pungente carta de despedida para o marido e a filha. Separei algumas linhas. “Anita, a ideia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. Meu querido Carlos, meu Garoto, choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça. Agora vou dormir, para ser mais forte amanhã. Beijo-os pela última vez”.