(Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Uma criança que para de falar, que deixa de brincar, que reage com medo a situações comuns. Às vezes, o que parece uma fase pode ser também um pedido de socorro que ainda não encontrou palavras. Aprender a reconhecer esses sinais não é tarefa de especialistas: é responsabilidade de quem convive com crianças e adolescentes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No Brasil, os dados mostram a dimensão do problema. No ano passado, foram registradas 59.887 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Entre 2015 e 2025, o total ultrapassa 422 mil notificações. Mas os números refletem apenas o que foi notificado. A violência sexual é, por natureza, uma das mais silenciadas: pode acontecer no segredo, se sustenta pelo medo e, com frequência, envolver pessoas próximas à vítima. A campanha Pode Ser Abuso, da Fundação Abrinq, parte de uma constatação simples e urgente: na maioria dos casos, pode não haver marcas visíveis. O que existe são sinais e eles, muitas vezes, aparecem no comportamento. O problema é que esses sinais raramente são lidos como o que são. Isolamento, agressividade, queda no rendimento escolar, reações desproporcionais: tudo isso pode ser rapidamente atribuído à adolescência, ao estresse, a uma "fase difícil". Essa leitura, ainda que bem-intencionada, contribui para que situações graves permaneçam ocultas por mais tempo. A isso se soma um cenário que exige atenção renovada: a violência também acontece em ambientes digitais. Redes sociais e jogos online tornaram-se espaços com possíveis situações de aliciamento e manipulação, em uma escala e com métodos que não existiam antes. E, nesse sentido, o abuso pode mudar de forma, mas não de gravidade. Mesmo sem contato físico, os impactos são profundos e duradouros. Esse contexto impõe novos desafios a famílias, educadores e profissionais da rede de proteção. A supervisão não pode se limitar ao espaço físico. É preciso entender as dinâmicas digitais, manter diálogo aberto sobre o uso da internet e, sobretudo, criar condições para que crianças e adolescentes se sintam seguros para falar. Muitas vezes, o silêncio não é ausência de sofrimento: é ausência de espaço para expressá-lo. Quando adultos estão atentos e disponíveis, as chances de identificação precoce aumentam. E isso faz diferença: intervenções mais rápidas interrompem ciclos que, de outra forma, podem se prolongar por anos. O enfrentamento da violência sexual exige responsabilidade coletiva. Isso significa reconhecer sinais, levar suspeitas a sério e acionar os canais de proteção disponíveis: Disque 100, Conselho Tutelar e delegacias. Proteger uma criança ou um adolescente, antes de tudo, é escolher agir. Michelly Antunes. Líder de programas e projetos da Fundação Abrinq.