[[legacy_image_281587]] Há muitos anos, ouvi de um velho capitão de navio atracado em Santos, com certeza, à época, o mais antigo da Marinha Mercante brasileira, que seu sonho era morrer no mar. Não sei se conseguiu realizá-lo, mas pela idade que tinha então, 83 anos, faltava pouco para ir ao céu dos navegantes. Lembro que ele era um exímio salineiro, no comando de um navio da navegação costeira que transportava sal de Aracati, no Ceará, para descarga em Santos. O capitão José Pedro Alexandrino, nascido em 1890, em Macau, no Rio Grande do Norte, mantinha o vigor na pele dourada marcada pelos ares marinhos. Já tinha passado pelos navios à vela e pelos de motor a vapor até chegar aos movidos a óleo diesel. Passou pelas mudanças nos instrumentos de navegação, mas não tirava os olhos do céu, como a conferir a rota pelas estrelas, como aprendera no início da profissão, aos 15 anos. Tinha medo da falha humana, medo que o mantinha sempre ativo. Nunca me esqueci de sua frase, que me revelou a bordo, sentado numa caixa de legumes do convés: “Quero continuar vivendo no mar e meu desejo é morrer no mar”. Não era apenas um desejo, mas uma decisão. “Só vou parar quando meus olhos estiverem fraquejando”. Essa persistência me recorda de Joshua Slocum, em seu livro A Viagem do Liberdade, do trajeto pioneiro em canoa de dez metros entre Paranaguá (Paraná) e Washington (EUA) com a mulher e dois filhos. Me lembra de Amyr Klink e suas viagens solitárias. Me leva aos antigos navegadores, a Ernest Heming-way, no embate de seu personagem para tirar do mar por dias o enorme marlim-azul que abocanhara a isca de sua vara, o que narra em O Velho e o Mar, e a tantos outros que enfrentaram a vastidão do mar, seus mistérios e as paixões que não os fizeram desistir. Persistência que também manteve vivo o velho capitão Alexandrino. Ele estava ali, resistindo a tudo, aos 83 anos, no comando, depois de passar por duas guerras mundiais, por dois naufrágios, ataques de submarinos e caminhos tortuosos de experiências fantásticas que me relatava como se tivessem ocorrido ontem, fatos que fluíam de sua memória fabulosa. Apesar de tudo, a morte não tinha chegado a ele em suas décadas pelos mares. Quando escrevi a sua história, em maio de 1973, com os detalhes que me contou, jamais me passou pela cabeça que deixaria marcados em mim, ainda hoje, não só o seu relato, mas a sua experiência, a coragem de tantos enfrentamentos e a resiliência de passar por momentos difíceis com sabedoria e constância, ainda mantendo-se firme no comando do navio com idade que outros já teriam abandonado aquilo há mais tempo. Ao longo dos anos que nos separam daquela entrevista, tenho falado dele com pouca frequência. Mas nunca mais soube quanto tempo viveu e se cumpriu o seu desejo de morrer no mar. Talvez não. Sei que tinha um rancho perto de Recife (Pernambuco), onde passava um rio. Não me admiraria se a morte o tivesse alcançado ali, ironicamente, na beira da água doce, ignorando tantos sonhos salgados por suas epopeias e por sua determinação.