[[legacy_image_283670]] No estudo de Beatriz Kushnir, sua dissertação de mestrado publicada em 1996, sabemos que, endividada, a Sociedade Feminina e Religiosa Israelita encerrou as atividades em 1968. Em 1972, o único imóvel que resta é o Cemitério Israelita de Santana, mas o abandono começa a tomar conta devido à falta de recursos. A mikvá é uma importante ferramenta religiosa para purificação. É um banho de imersão em água que venha de uma fonte natural, um poço ou água da chuva. Imergir numa mikvá quebra as camadas de negatividade que bloqueiam a conexão entre nossa alma e a Luz do Criador. A palavra mikvá tem numerologia 151, mesmo valor numérico da palavra raiva em hebraico. A mikvá ajuda a lidar com a raiva, uma das mais prejudiciais extensões do ego. O ego nos obriga a esconder a pureza, a inocência, a bondade, o amor que temos por nós e pelos outros. Impede-nos de viver apenas o presente e de ver esse momento como sagrado que é, e não viver os medos do passado ou as ansiedades do futuro. A profanação é confirmada, quando a pequena sala de banho começa a servir de vestiário para os funcionários do Cemitério Chora Menino. E tudo mais é desrespeitado, túmulos depredados, o mato toma conta. A Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo aceita a transferência de todos os corpos que familiares não sepultaram para outros cemitérios, como nos elucida Kushnir. Os não reclamados, em um total de 209 restos mortais, vão para o Cemitério Israelita de Butantã, em sepulturas sem nomes! E teriam permanecido anônimas não fosse o empenho de Kushnir, estudando suas trajetórias por 12 anos, desde 1988, quando era um tabu falar sobre o assunto. Em 1997, ela escreve um artigo sobre a restauração do Cemitério Israelita de Cubatão, há três décadas abandonado e que pertenceu à Sociedade Beneficente e Religiosa Israelita de Santos, sendo restaurado pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo Chevra Kadisha, em cooperação com a Prefeitura de Cubatão. Ali estão enterrados cerca de 15 homens e 60 mulheres de origem judia, que tiveram como ofício a prostituição e a cafetinagem no baixo meretrício santista, até 1960, quando, segundo Kushnir, as sócias da SFBRI, já idosas, sem poderem cuidar umas das outras, transferiram as asiladas para o lar dos velhos da comunidade judaica de São Paulo, na Vila Mariana. Em 1999, o presidente da Chevra Kadisha convida Beatriz Kushnir para ajudá-lo a nominar as lápides das polacas no Cemitério Israelita do Butantã, 209 corpos, por 27 anos enfileirados em túmulos esquecidos. Em 2000, uma reza inaugurou as lápides, que recebem nomes e datas de falecimento. Beatriz Kushnir reflete que nomear, conhecendo, é de outra ordem. O nome e os possíveis sobrenomes naquelas lápides não são para atender à curiosidade de quem olha. São um presente póstumo para quem ali está. Em cada lápide há os restos de um corpo, de uma história, de uma vida. O mais bonito é que para onde emigraram, fundaram sociedades que refletiam o mundo judaico do qual estavam alijadas. Beatriz Kushnir mapeou cinco sociedades de ajuda mútua nas cidades do RJ, SP, Santos, Buenos Aires e NY. Em cada cidade onde o mercado era propício às exóticas judias, deve ter existido sociedades, sinagogas e seus cemitérios, mantendo a identidade religiosa, já que o convívio com as comunidades judaicas locais lhes era proibido e as demais instituições comunitárias judaicas não permitiam sua participação. Hoje tiramos a mordaça das polacas. E do fundo da terra, podemos ouvir o grito libertário!