[[legacy_image_283294]] O crescimento populacional em São Paulo, desde meados do século 19, trouxe etnias com diferentes culturas e religiões, que consideram cemitérios e ritos de passagem muito importantes. Com a Proclamação da República, o Brasil recebe com menos burocracia imigrantes judeus, alemães, espanhóis e italianos, que desejam um cemitério próprio. Chegam com as famílias judaicas, jovens mulheres. Iludidas por aliciadores tornam-se prostitutas, conhecidas e descriminadas como ‘polacas’. Seguem para o Centro de São Paulo, zona de baixo meretrício na década de 1920. Outras ficam na região de Santos ou desembarcam no Rio de Janeiro. As mais jovens têm como destino certo Buenos Aires, sede da organização Zwi Migdal, que atuou por mais de 70 anos, desde 1860 no Leste Europeu, traficando mulheres para a prostituição na América do Sul. Prostíbulos brotam feito erva daninha em cidades brasileiras. Sujeitas à violência e à humilhação, excluídas da sociedade, longe dos familiares e com poucas perspectivas de vida, a marginalidade social estava presente na face das polacas, sem forças para dar um ‘basta’! O que as fortalecia era a religião. No judaísmo, a importância do cemitério está no respeito ao corpo que recebe ritos para o enterramento. São considerados impuros os corpos dos suicidas e das prostitutas. As polacas não podiam ser sepultadas em cemitérios judaicos. Unidas, fundam em 1924 a Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita (SFRBI), garantindo a internação hospitalar e em caso de morte, o apoio necessário e o sepultamento. A primeira presidente, Rosa Cypre Celmare ou Rosa La Grego, atuou até 1929, arrecadou fundos para a sede social, fez ações de caridade, possibilitando a construção do cemitério israelita no Bairro Santana, ao lado do Cemitério Municipal Chora Menino. As associadas falecidas antes da inauguração em 1928 foram sepultadas no Cemitério da Consolação. Em 1944, a sociedade compra e transforma um sobrado em sede e mais tarde, em asilo. No fim da década de 50 a SFRBI enfraquece, sem auxílio nem renovação de sócias, com 80 anos ou mais. Endividada encerra as atividades em 1968 e cai no ostracismo. Em 1972, o único imóvel que resta é o Cemitério Israelita de Santana. Devido à falta de recursos, o mikvá, importante ferramenta cabalística de purificação, é profanado! A pequena sala de banho começa a servir de vestiário para os funcionários do Cemitério Chora Menino, túmulos são depredados e o vandalismo toma conta! Um decreto cassa em 1972 a autorização para manter o cemitério em imóvel municipal. A desapropriação bate na porta do Cemitério Israelita de Santana, onde 233 pessoas estavam sepultadas. Famílias são avisadas, mas só vinte e quatro pessoas são transferidas. O que fazer com os 209 restantes? A Sociedade Cemitério Israelita de SP aceita a transferência para o Cemitério Israelita de Butantã, em sepulturas anônimas. Beatriz Kushnir em 1997 escreve um artigo sobre o cemitério israelita de Cubatão. Há 30 anos abandonado, é restaurado pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo Chevra Kadisha, em cooperação com a Prefeitura de Cubatão. Ali estão enterrados cerca de 15 homens e 60 mulheres de origem judia, que tiveram como ofício a prostituição e a cafetinagem no baixo meretrício santista.