(Adobe Stock) Vai distante o tempo em que sofremos a última epidemia de cólera, quando fui convocado para compor uma equipe de sanitaristas no Amazonas. O primeiro caso foi diagnosticado em Manaus, em 1991. A essa altura, eu estava em Tabatinga, de onde um indivíduo infectado saiu de barco pelo Rio Solimões até a capital. Quase ao mesmo tempo, um pesquisador me avisou que uma indígena havia falecido há poucos dias com o mesmo sintoma: diarreia profusa. De helicóptero, rumamos para uma aldeia da etnia Tikuna. Não foi tarefa fácil. A criança estava sepultada na floresta, conforme as tradições de seu povo. Os Tikuna habitam o chamado Trapézio Amazônico, região fronteiriça entre Brasil, Colômbia e Peru. Não fosse o técnico da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a comunicação não teria sido possível, pois eles não falavam o português. Expliquei, com o cuidado que a situação exigia, a necessidade de exumarmos o corpo para estabelecer o diagnóstico. E assim foi feito. Munido da obrigação de atender às exigências do Ministério da Saúde, tentei preencher as fichas epidemiológicas: — Qual o seu nome? ... — Idade? ... O técnico se adiantou: — Doutor, eles não têm nome nem idade como nós. As relações aqui são outras. Saí sem estar convencido. Trouxe o material biológico — que se mostrou negativo — e as fichas em branco. Ali, o tempo não cabia nas minhas perguntas. Eu levava comigo um tempo que precisava ser medido, registrado, arquivado. Mas, naquela aldeia, nada disso fazia sentido. Não porque lhes faltasse informação, mas porque lhes sobrava outra forma de estar no mundo. As relações não se organizavam em torno de um “antes” e um “depois” como os nossos. Não havia urgência em fixar o instante, em transformar o vivido em dado. Saí de lá com a sensação incômoda de que minhas perguntas estavam erradas. Ou, talvez, fossem perguntas certas para um mundo que não era aquele. Aprendemos a medir o tempo como quem tenta dominá-lo. Dividimos o dia, contamos os anos, acumulamos prazos. Transformamos o tempo em instrumento — e, pouco a pouco, passamos a viver subordinados a ele. Há, porém, um outro tempo, menos visível. Um tempo que não se deixa capturar em fichas nem se organiza em calendários. Ele se revela na experiência, no encontro, no que escapa ao registro. Voltei com o material negativo e as fichas em branco. E com uma suspeita que não cabia em relatório: talvez nem tudo o que importa possa ser medido. *Marcio Aurelio Soares. Médico