<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="322" data-start="137" dir="auto">Há partidas que não cabem no silêncio. Quando Amelinha Teles fez a travessia para o plano espiritual, a reitoria da Unifesp vestiu-se com o colorido vivo de centenas de coroas floridas.</p> <p data-end="454" data-start="324" dir="auto">Era a tradução exata, em cores e perfumes, de uma mulher que dedicou sua existência à justiça, à liberdade e aos direitos humanos.</p> <p data-end="589" data-start="456" dir="auto">Em tempos tão áridos e difíceis para a nossa sociedade, a despedida de Amelinha transformou-se em um poderoso ato político e afetivo.</p> <p data-end="891" data-start="591" dir="auto">A presença marcante das Promotoras Legais Populares e das membras da União de Mulheres de São Paulo, companheiras de luta, acadêmicas e cidadãs comuns funcionou como um termômetro da alma coletiva: mostrava, sem margem para dúvidas, o quanto ela foi e continuará sendo essencial na vida de todas nós.</p> <p data-end="1069" data-start="893" dir="auto">Ela era o abraço firme e a voz corajosa que nunca silenciou diante da opressão, sobrevivente da tortura que escolheu transformar a própria dor em semente de luta e resistência.</p> <p data-end="1175" data-start="1071" dir="auto">Entre coroas e abraços estreitados pela saudade, o adeus não se fez com silêncio pesado, mas com música.</p> <p data-end="1372" data-start="1177" dir="auto">A despedida foi embalada pelas canções das Promotoras Legais Populares (PLP) e pela alegria contagiante da marcha do Bloco Dona Yayá, criado por ela mesma para ocupar as ruas com arte e política.</p> <p data-end="1622" data-start="1374" dir="auto">As vozes ecoaram em coro, unidas ao ato inter-religioso, transformando o luto em celebração. Era a certeza de que a alegria e a espiritualidade também são armas revolucionárias, e que a memória de Amelinha cantará para sempre em cada voz militante.</p> <p data-end="1821" data-start="1624" dir="auto">O projeto PLPs está entre os seus maiores legados, uma verdadeira revolução silenciosa que descentralizou o saber jurídico e o entregou nas mãos das mulheres, principalmente aquelas das periferias.</p> <p data-end="1936" data-start="1823" dir="auto">Ao ensinar que o direito pertence a quem dele precisa, Amelinha multiplicou-se em milhares de outras “Amelinhas”.</p> <p data-end="2090" data-start="1938" dir="auto">Cada Promotora Legal Popular formada é a prova viva de que o conhecimento liberta, e que a justiça social se constrói coletivamente, de baixo para cima.</p> <p data-end="2316" data-start="2092" dir="auto">Agora, Amelinha descansa da lide terrena, mas assume o seu posto definitivo como nova ancestral. Ela passa a habitar o invisível tecido que sustenta a nossa luta diária, guiando os passos das feministas que seguem a marchar.</p> <p data-end="2522" data-start="2318" dir="auto">As flores que cobriram sua despedida murcharão, e os acordes se acalmarão, mas a horta comunitária de direitos, dignidade e poesia que ela plantou floresce todos os dias em cada mulher que levantar a voz.</p> <p data-end="2575" data-start="2524" dir="auto">Amelinha não partiu; ela virou canto, raiz e vento.</p> <p data-end="2641" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2577" dir="auto">*Cidinha Santos. Jornalista, feminista e promotora legal popular</p>