[[legacy_image_341179]] No dia 12 de fevereiro de 1976, Mário Vargas Llosa caminhava pelo corredor de um cinema mexicano quando viu Gabriel García Márquez, o Gabo, sentado ao lado de sua esposa, Mercedes Barcha. Muito feliz com a surpresa, o escritor colombiano ergueu-se, sorridente, e abriu os braços para estreitar seu fraternal amigo. “Irmão!” O escritor peruano não permitiu que a cena de grande afeto se completasse. Desferiu um portentoso soco no olho esquerdo de García Márquez, que caiu e levou a mão ao rosto para estancar um início de sangramento. Vargas Llosa bradou: “Não é assim que se trata a mulher de um amigo. Isso é pelo que você disse e fez a Patrícia”. Ela era a belíssima esposa do autor de A Casa Verde. O episódio interrompeu uma ligação muito estreita entre os dois casais, iniciada em 1967. Nos anos seguintes, a aproximação se consolidou. Quando eles moraram em Barcelona, em casas próximas, as crianças brincavam todos os dias, alegremente. Era como se formassem uma única família. A tal ponto que o casal peruano deu seu segundo filho, Gonzalo, para que os García Márquez o batizassem. Desde o episódio no cinema os dois escritores mantiveram um pacto de silêncio não combinado. O rompimento foi ganhando várias versões ao longo do tempo. Uma delas lembra que o casamento de Vargas Llosa passou por uma grave crise nos anos 1970. E que García Márquez se apressou em consolar Patrícia, apoiando eventuais procedimentos de divórcio. Gerald Martin, autor da mais completa biografia de García Márquez, levanta uma possibilidade bem curiosa. “Os ingredientes de política, sexo e rivalidade pessoal produzem um coquetel potente, seja qual for a proporção em que estejam misturados. Por trás do evidente sentimento de traição de Vargas Llosa, pode ter se ocultado uma ansiedade. A de que o pequeno colombiano pouco sedutor estivesse se saindo melhor que a encomenda. O próprio sucesso literário, extraordinário e bem merecido, e a fina estampa de belos traços de Mário não eram suficientes em si mesmos (para manter Patricia presa aos seus encantos). Talvez a única arma que lhe restara fosse o soco poderoso. Se estivesse prevenido, pode-se imaginar Gabo correndo em volta de Mário, como um Charles Chaplin, e socando-o várias vezes pelas costas.” A reconciliação dos escritores jamais ocorreu. Gabo e Patrícia mantiveram um silêncio sepulcral. Nenhum dos dois disse o que realmente havia acontecido entre eles. E ela, pivô de todo o episódio, nunca revelou a versão que passou a Mário e que tanto o indignou. A única verdade, até agora, é que o veneno do ciúme contaminou a relação dos dois gigantes da literatura. E provocou a divergência, o soco e o rompimento definitivo. Mercedes, mulher de García Márquez, tinha algo a dizer a respeito: “Mário é um ciumento estúpido. Seu gesto foi covarde e desonroso”.