Agosto, mês do folclore. As tradições, lendas e costumes são lembrados e passados de geração a geração, perpetuados no chamado “saber do povo”. Isso nos possibilita manter fortes as raízes que nos ligam aos que já se foram, mas deixaram suas experiências de vida, boas de lembrar e reproduzir. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quando criança eu ouvia inúmeras estórias, contadas pela minha mãe, que as tinha ouvido de seus pais e que passaram pelas gerações. Eram relatos de situações que prendiam a minha atenção e eu, usando minha imaginação, criava a aparência de cada personagem e cada paisagem, seguindo a sequência das narrativas. Das diversas estórias contadas, uma me impressionou. Ouvi, com extrema atenção, a história um pássaro, meio parecido com um pequeno gavião, identificado pelo nome de rasga-mortalhas. Caso ele passasse voando sobre o telhado de uma casa e emitisse seu canto longo, triste e dissonante, parecido com o rasgar de um tecido, alguém daquela casa morreria. Ela contou sobre um rico fazendeiro que se gabava por nada temer. Ele ironizava e dizia que se o tal pássaro rasgasse o céu sobre o telhado de sua casa, quem iria morrer, certamente, seria a ave. Num determinado dia do mês de agosto, um desses tais rasga-mortalhas cruzou o céu daquele lugar e passou justamente por sobre sede da fazenda do tal homem. E o seu piado lamentoso foi sentido por todo o lugarejo. Parece até que o bicho estava querendo propagar e anunciar o mau-agouro, sem se importar com o escolhido, fosse ele rico ou pobre. Casualmente ou não, dias depois o tal fazendeiro ficou doente e caiu de cama. Foi piorando até que, não resistindo, morreu. E todos daquele lugarejo lembraram-se do rasga-morlalhas e passaram a temer ainda mais cada sobrevoo dele. Muitos até punham os joelhos em terra rogando a proteção a Deus. Escutei essa estória e fiquei atemorizado, não desejando que esse bicho chegasse perto da nossa casa. Porém, fiquei sabendo da morte de um senhor, vizinho nosso. Não pude precisar, mas imaginei que ouvira o tal ruído do rasga-mortalhas dias antes. Perguntei à minha mãe se ela tinha escutado qualquer coisa nesse sentido. Ela parou seus afazeres, matutou e falou categórica que tinha ouvido sim, numa noite, o tal pássaro, “ave maldita e agourenta”, segundo ela. Hoje, distante da doce simplicidade daqueles que acreditam em superstições, mas vivendo numa atmosfera repleta de outros sons provocados pela cidade grande, já nem me importo se, num determinado dia, ouvir o piado do tal rasga-mortalhas que, certamente, estará perdido, entre muitos outros ruídos, consequências da violência urbana.