[[legacy_image_263080]] Seguindo a sugestão da fisioterapeuta, reinicio a caminhada pelas ruas da Ponta da Praia. Senhoras conversam entretidas. Os cães latem, saltam e se cheiram. A alegria do encontro é maior que a razão: as mulheres nem percebem que ocupam toda a calçada. Vou pelo meio da rua e sorrindo, retomo o espaço. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Nesse exato momento sou atropelada por três cachorros puxados pelas coleiras. Quase vou ao chão! O dono, jovem musculoso, segue indiferente. Lembro do novo filme Assim caminha a (des)humanidade. O céu azul de outono me leva à floricultura. O dono, sr. Igary, numa cadeira de rodas, sorri emoldurado pelas cores. Não é primavera, mas todas as estações têm suas espécies ou as que vicejam em qualquer época. Escolho violetas roxas, azuis e cor-de-rosa. Não me contento. Sigo até o supermercado, onde a área de plantas é uma tentação. Outras violetas, agora repolhudas e algumas com um friso branco arrematando as pétalas. Ah, kalanchões de folhas e tons diferentes exibem botões semi-abertos. Nem só de cores se veste a alegria. A delicadeza do tomilho faz parte da colheita. Atravesso a avenida, carregando as preciosidades com extremo cuidado, que se estende até em casa, ao tirar cada vaso da embalagem. O beija-flor no bebedouro parece compartilhar deste momento sagrado, quando agradeço o privilégio do júbilo, deixando de lado o que não me pertence. E o que não me pertence? O casal que prefere ter cães a ter filhos. Os donos que levam o cachorro ao restaurante e lhe dão comida à mesa. Os que não recolhem os dejetos. Os vizinhos que não respondem aos cumprimentos. Os que... são tantos, impossível nominá-los! O que me pertence é cada momento em que me cumpro. Assim, escolho os cachepôs. O tomilho acena na caixa pintada pela filha com um haicai de minha autoria: tarde de outono –/ao vento leve a filha/nos braços da mãe. A manhã aprofunda o silêncio e a paz. Procuro o lugar mais luminoso para cada vaso, espalhando iluminuras pelo apartamento. Preparo o almoço com prazer, apesar dos joelhos frágeis e doloridos. Enquanto a comida está no fogo, descanso no sofá. Aprecio a natureza que trouxe para dentro de casa (e de mim), procurando entender que as plantas e flores de outono evoluíram para se adaptarem ao vento e, principalmente, à redução da incidência de luz solar – no outono os dias começam a ficar mais curtos, isso sem falar nos dias nublados. As plantas e flores de outono gostam de sol ameno, vento e pouca água. O outono na região sul possui características diferentes do outono na região norte. A flor de maio não precisa de regas frequentes, mas de muita luz, longe dos raios diretos. A cattleya, orquídea de outono, presente de antigo aniversário, pede os mesmos cuidados. Ah, as margaridas! Tão alegres e charmosas, são flores de outono muito populares no Brasil. As minhas, regadas em excesso, tiveram as folhas e as flores brancas queimadas pelo sol. A natureza mostra as diferenças e semelhanças entre as espécies, confirmando a cada estação, que tudo é transitório. Somos natureza, portanto, diversos e mutantes. Procurando aceitar melhor os fatos a cada novo dia, continuo o caminhar, levando apenas o que me pertence.