Menino pés no chão, das ruas de terra de um saudoso Itapema. A casa de madeira não dormia; suspirava e respirava a cada estalo em suas vigas, guardando no escuro a lembrança das raízes que um dia tocaram o substrato. Ela veio patinho, como todo filhote. O Menino carregava o mistério da infância. Toda amarela, com a penugem vestida de sol, a alquimia acontecia, despia-se para se vestir de nuvem. Ele a nomeou Margarida, personagem das estórias em quadrinhos de Walt Disney. Tornaram-se grandes amigos. Engraçado, a infância não tem pressa; caminhava a passos de tartaruga, esticando os dias eternos. As brincadeiras em frente ao chalé aconteciam junto à molecada. Pião, bola de gude, futebol... vida simples, tão feliz. Dias largos, sem açodamento. O itinerário do bonde marcava no chão batido o ritmo das horas, esquecidas de passar. Havia também os silêncios, raros. Bastava o Menino se sentar no batente da porta para Margarida vir atrapalhar, bicando seus pés descalços ou tentando subir em seu colo. Ele ria alto e o quintal se enchia de barulho, até as árvores se divertiam com a cena. O vento trazia cheiros de mar e de mata. Nesses momentos, a gargalhada do Menino fazia tudo parecer maior do que o lar, como se o mundo inteiro coubesse dentro de sua imaginação, tal qual quando seu irmão mais velho o levava ao Cine Teatro Itapema. Quanta nostalgia... Margarida já “mocinha”, vestida de branco, seguia o amigo toda vez que ele estava no quintal. Ao chamado, corria radiante, como se fosse a própria felicidade. Era especial. Não conseguia boiar, pois faltava-lhe o “fel”, a gordura necessária para flutuar. Afundava na água, mas encontrava sua terra firme no andar do Menino. Na imensidão daquele cenário, deslizava devagar, mostrando que não precisava de lagos para estar em paz. Nem tudo foi conto de fadas. Certo dia, o Menino chegou em casa na hora do almoço. Mesa posta. Entre os alimentos, um assado disposto em uma grande travessa cercado de batatas. Com a curiosidade impertinente da época, perguntou à mãe se aquela era a Margarida. Ela, com a franqueza dos dias antigos, respondeu que sim. Tomado pelo choque e pela dor, fez “rena”. Recusou-se a comê-la. Como assim? Mataram Margarida! Chorando de revolta, acusou sua mãe e seu irmão. Naquele instante, apesar da insistência paciente e amorosa da matriarca, não almoçou. O prato ficou intocado e o quintal, para sempre silencioso. Menino cresceu, tornou-se mestre, professor, poeta e escritor. Galgou e venceu todos os desvarios da vida, mas aquela patinha continua em sua grande e doce memória, alimentando uma saudade boa, que nunca morre, guardada eternamente. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais, Membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios