Governo pode anunciar lockdown na Baixada Santista (Matheus Tagé/Arquivo AT) Há algum tempo venho me perguntando por que a Baixada Santista, mesmo reunindo alguns dos ativos econômicos mais estratégicos do país, continua incapaz de construir uma agenda regional consistente para o seu futuro. Temos o maior porto do Hemisfério Sul, um dos principais polos industriais do Brasil, infraestrutura logística privilegiada, universidades, institutos de pesquisa, tradição sindical, capacidade técnica e enorme potencial para liderar a transição energética e a neoindustrialização brasileira. Ainda assim, seguimos reagindo às crises — e raramente planejando o futuro. A Baixada Santista fala muito sobre seus problemas, mas pouco sobre seu projeto comum. Talvez esse seja o nosso principal gargalo. Falta-nos uma visão regional de desenvolvimento. Cada cidade disputa isoladamente investimentos, obras e protagonismo político, enquanto os grandes temas que definirão nosso futuro ultrapassam completamente os limites municipais: porto, mobilidade, habitação, logística, saúde, meio ambiente, mudanças climáticas, industrialização, empregos e transição energética. Nenhum desses desafios pode ser resolvido de forma fragmentada. O caso de Cubatão é emblemático. Durante décadas, a cidade sustentou parcela significativa da industrialização brasileira, pagando um preço ambiental e social altíssimo. Hoje, enfrenta um processo silencioso de desindustrialização, perda de empregos e redução de arrecadação. Ao mesmo tempo, a movimentação econômica do porto cresce de forma impressionante. Mas essa riqueza circula sem necessariamente produzir desenvolvimento territorial, emprego de qualidade ou redução das desigualdades. Existe aí uma contradição que a região ainda não enfrentou politicamente: como é possível que um território tão estratégico permaneça tão vulnerável? A resposta passa necessariamente pela ausência de planejamento regional de longo prazo. A Baixada Santista continua excessivamente dependente de agendas externas. O desafio agora é construir um novo ciclo de desenvolvimento baseado em inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental, agregação de valor, soberania produtiva e geração de empregos qualificados. E isso exige coragem, sobretudo das lideranças políticas da nossa região. Exige discutir o papel estratégico do Porto de Santos. Exige defender cadeias produtivas nacionais. Exige integrar universidades, institutos federais, setor produtivo e sindicatos. Exige pensar mobilidade, saúde pública e habitação como parte do desenvolvimento econômico. Exige compreender que transição ecológica e industrialização não são agendas opostas. Exige, sobretudo, capacidade de coordenação regional. *Paula Ravanelli. Advogada feminista, ativista dos Direitos Humanos, procuradora de Cubatão e atuou como assessora especial para Assuntos Federativos da Presidência da República.