O trânsito tomou conta do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) (Alexsander Ferraz/AT) Vou ao supermercado e me deparo com um carrinho atravessado no corredor. Está cheio de compras, mas não há qualquer pessoa conduzindo-o. Sou obrigado a empurrar esse carrinho ou então dar meia volta e tentar utilizar outro corredor. Caminho pela praia e vejo um casal jogando tamboréu, mas eles não estão jogando paralelamente à água, e sim perpendicularmente. Portanto, todos os caminhantes devem desviar deles para não atrapalhar o seu jogo. Ando pelas calçadas da cidade e me deparo com uma roda de pessoas conversando alegremente, ocupando toda a largura da calçada. Sou obrigado a descer para a rua para poder continuar o meu caminho. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Decido subir a Imigrantes para ir até São Paulo e me deparo com um veículo subindo pela faixa mais à esquerda da rodovia, mas a uma velocidade de cerca de 50 km/h. O que devo fazer? Dar um pequeno sinal de luz correndo o risco de levar um dedo em riste? Ultrapassá-lo pelo lado direito correndo o risco de levar uma multa? Ou me resignar e subir a Serra na velocidade escolhida pelo meu colega de estrada, correndo o risco de chegar atrasado ao meu compromisso? Com certeza qualquer um de nós poderia complementar essa lista com muitos outros exemplos. No entanto, a pergunta que deveríamos fazer é: o que aconteceu com a empatia? Não me venham dizer que “é coisa dessa juventude”, pois tenho percebido que os exemplos citados acima, que se repetem regularmente, abrangem todas as faixas etárias. Eu me pergunto: será que sempre foi assim? Não, definitivamente nem sempre foi assim. E quais seriam, então, as causas desse fenômeno? Vamos lá... O problema começa com o déficit na educação familiar. Os pais e outros membros da família atuam como modelos comportamentais para as crianças. Quando os adultos demonstram empatia em suas interações cotidianas, as crianças aprendem a valorizar e praticar a empatia. As famílias deveriam, portanto, transmitir valores e normas que moldem as atitudes em relação aos outros. Valores como respeito, solidariedade, justiça e cooperação incentivam as crianças a desenvolver empatia e comportamentos pró-sociais. E por que será que os pais não têm feito isso durante as últimas gerações? Acontece que a educação formal, aquela das escolas, está tão deteriorada que deixou de desempenhar um dos seus papéis cruciais: o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas. A educação debilitada, ou seja, inadequada, desigual e de baixa qualidade, tem impactos negativos significativos sobre a capacidade dos indivíduos de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros. Nos países altamente civilizados, a educação não é focada apenas no conhecimento acadêmico, mas também em habilidades socioemocionais. Esses programas ensinam habilidades como autoconsciência, gestão de relacionamentos e, obviamente, a empatia propriamente dita. Professores e educadores, assim como os pais, deveriam desempenhar um papel fundamental na modelagem de comportamentos empáticos. No entanto, no nosso sistema educacional debilitado, os pais se tornam cada vez mais ausentes e os educadores são sobrecarregados, mal pagos e não treinados para lidar com questões socioemocionais. Portanto, para combater a falta de empatia, é crucial investir em uma educação holística e inclusiva que valorize tanto o desenvolvimento acadêmico quanto o emocional e social. Além da modernização dos programas educacionais, é necessária a retomada de ambientes escolares saudáveis e inclusivos, bem como a formação contínua de educadores para que possam servir como modelos positivos de empatia. Uma sociedade mais empática começa com uma educação que valoriza e promove a compreensão e a compaixão desde cedo. Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.