(Pixabay) Ao longo de 40 anos, o escritor e filósofo Umberto Eco releu, regularmente, a obra Sylvie, de Gérard de Nerval, publicada originalmente em 1853. Durante quatro décadas, também, o sociólogo, crítico literário e professor Antonio Candido fez releituras do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e em uma de suas entrevistas chegou a afirmar ter lido mais de 70 vezes o romance S. Bernardo, do mesmo autor. Amante das palavras, o filósofo e filólogo Friedrich Nietzsche teria sugerido aos leitores que “ruminassem” as ideias, em mais de uma leitura, de modo a descobrir novos significados e interpretações de uma obra. Pouco interessante para o mercado editorial e se apresentando como algo que caminha na direção contrária à velocidade de nosso tempo, o ato da releitura pode não apenas servir para o aprofundamento de um estudo literário, mas produzir novos prazeres, quando menos esperamos. Cada novo encontro com os personagens de um livro, cada passo dado com a imaginação nos lugares a que eles nos conduzem desencadeiam no espírito uma sensação ainda não experimentada. O previsível é substituído pelo inusitado, pelo inimaginável, por situações que não haviam sido percebidas em uma primeira leitura. Os textos são inicialmente concebidos para uma leitura linear, em sua progressão temporal. Porém, se o leitor quiser usufruir de todas as camadas de uma história minimamente bem construída, ou saber como o texto funciona – caso do romance, conto, poesia etc. – a releitura é indispensável. Claro que nem todos os livros servem à releitura, mesmo entre os de autores renomados. Dependerá muito do interesse e da necessidade de cada leitor – caso de obras-fonte – e também do espírito de aventura daqueles que estiverem dispostos a grandes e novas viagens. Outro aspecto a considerar é o estímulo que a releitura oferece à criatividade e ao pensamento crítico. O (re)leitor desenvolve habilidades analíticas e expressivas, aprendendo a articular com maior facilidade suas emoções e visões de mundo. No campo da Educação, a releitura é uma poderosa ferramenta pedagógica, incentivando a exploração de narrativas, de contextos sociais, que enriquecem o aprendizado. O desejo da releitura geralmente faz parte da vida do leitor que gosta de estabelecer uma relação mais intensa com a obra literária e com suas próprias demandas existenciais. É o leitor que não está interessado na assimilação rápida de um livro, apenas para que ele figure na relação de obras às quais teve acesso – mesmo que superficial – ao longo da vida. Reler é interagir mais profundamente com as palavras, reinterpretar significados, transformar a experiência literária em um diálogo pessoal, enriquecedor e, sobretudo, prazeroso. *Jornalista e escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos