No implacável xadrez da política, existe uma máxima não escrita, mas duramente sentida: é preciso poder para continuar no poder. E, quando a ambição aponta para o Legislativo estadual ou federal, o poder exige, antes de tudo, a força de alcançar. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Na Baixada Santista, o recente ‘Dia do Fico’ encenado no Paço Municipal de São Vicente é o retrato mais perfeito e melancólico dessa premissa. Sob a roupagem poética de ‘não renunciar a um sonho’, esconde-se a mais fria das constatações: o chefe do Executivo não ficou por abnegação; ficou porque perdeu o poder de sair. A matemática eleitoral não aceita lirismo. Um governante que assiste à sua aprovação derreter de 87,6% para 34,3% em um curto período – uma hemorragia política de 53,3 % – não possui a musculatura necessária para pleitear a representatividade de uma região inteira. O cargo de deputado exige capilaridade, estrutura e trânsito consolidado nos nove municípios da Baixada. Sem essa base, e politicamente isolado, o projeto nasce morto. A permanência, portanto, não é um movimento estratégico em prol do Município, mas a contenção desesperada de um naufrágio eleitoral. A tentativa de justificar a desistência com a necessidade de ‘fazer entregas’ é, na verdade, a confissão pública de um passivo gerencial inaceitável. A narrativa do ‘sacrifício’ tenta embalar um mandato refém de vitrines virtuais, onde sobra marketing em maquete 3D e falta execução material. Nas redes sociais, a cidade é uma maquete impecável; nas ruas reais, a população tropeça na zeladoria em colapso, na saúde agonizante e na revolta justa dos médicos. A decantada ‘gestão profissional’ esfarelou-se nas mesas do Tribunal de Contas (TCE-SP), que suspende licitações e expõe a fragilidade administrativa. Diante da falta de tamanho político para competir em mar aberto com as forças regionais, a desistência não foi uma escolha, foi uma sentença. No tribunal das urnas, a gravidade pune quem tenta voar sem asas. Aquele que prometeu romper com os vícios do passado abraçou a tática mais antiga da velha política: maquiar a própria fraqueza com o verniz do heroísmo. A verdade irrefutável é que o ‘diga ao povo que fico’ é, na prática, um silencioso ‘não consigo sair’. Porque, antes de buscar poder do lado de fora, o governante precisa provar que tem capacidade para honrar o que está dentro.